Justiça Federal suspende homologação de megaleilão de energia que pode elevar conta de luz em 10%

Usina termelétrica - Foto: Pixabay
Justiça Federal do Ceará suspende liminarmente a homologação do megaleilão de energia de 2026, citando risco de alta de até 20% nas tarifas industriais
A Justiça Federal do Ceará suspendeu liminarmente a homologação do megaleilão de energia de reserva de capacidade de 2026, realizado em março deste ano. A decisão impede temporariamente a assinatura dos contratos e foi motivada pelo risco de impacto tarifário e por efeitos financeiros considerados de difícil reversão.
A decisão liminar foi proferida pelo juiz federal Luis Praxedes Vieira da Silva, da 1ª Vara Federal do Ceará, em resposta à ação movida pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará e pelo Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará. As entidades questionam tanto a legalidade quanto a modelagem do certame.
O megaleilão havia contratado cerca de 19,5 gigawatts (GW) de potência, entre energia térmica e hidráulica, para garantir o abastecimento do sistema elétrico nacional em momentos de escassez. O resultado do processo estava na pauta da diretoria da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para validação nesta semana, o que viabilizaria os contratos com os empreendimentos vencedores.
Impacto tarifário como principal argumento
O potencial inflacionário foi o principal motivador do pedido de suspensão. Segundo o veredito, os certames têm potencial de elevar em 20% o valor das contas de energia elétrica para as indústrias. Para os consumidores em geral, a alta estimada é de aproximadamente 10%. As projeções levam em conta os custos bilionários gerados pela contratação de usinas termelétricas, especialmente as movidas a gás e carvão.
O magistrado destacou que a formalização dos contratos poderia gerar efeitos de difícil reversão e apontou risco de impacto significativo sobre as tarifas de energia para consumidores e empresas, o que justificaria a suspensão até uma análise mais aprofundada do mérito. A decisão foi encaminhada à Justiça Federal do Distrito Federal, mas o juiz determinou que a suspensão tenha efeito imediato e permaneça válida até nova manifestação do juízo competente.
A decisão também menciona questionamentos levantados pela área técnica do TCU (Tribunal de Contas da União), que apontou possíveis problemas de competitividade no certame, baixos deságios e dúvidas sobre os custos das usinas térmicas contratadas, especialmente as movidas a gás e carvão. O próprio TCU já havia pedido a suspensão parcial da homologação do megaleilão, defendendo o congelamento da contratação das usinas termelétricas por identificar um lucro extraordinário das empresas vencedoras, como os grupos J&F, dos irmãos Batista, Eneva, de André Esteves, e Petrobras.
Estrutura e vencedores do leilão
O certame ocorreu em março com o objetivo de garantir a segurança do sistema elétrico. Diferente do modelo tradicional, o governo contratou usinas de prontidão, que entram em operação imediata durante picos de consumo ou falhas de fontes como solar e eólica. O leilão contratou cerca de 20 GW, o equivalente a uma Itaipu e meia, viabilizando investimentos da ordem de R$ 64,5 bilhões.
O certame foi dominado por térmicas a gás natural, que oferecem resposta rápida ao sistema. Empresas como Eneva, BTG Pactual (por meio da Geradora de Energia do Maranhão) e New Fortress Energy garantiram contratos relevantes. A maioria dos projetos vencedores está no Nordeste, aproveitando o gás do Maranhão, e no Sudeste, próximo aos centros de consumo.
Além do gás natural, que representou 80% do total contratado, houve contratação de usinas a carvão mineral, óleo combustível e projetos de ampliação de hidrelétricas existentes. O MPF (Ministério Público Federal) já havia solicitado ao Ministério de Minas e Energia e a outras três entidades públicas a paralisação da validação do maior leilão de energia do ano, com prazo de 48 horas para resposta.
Do lado contrário, a Aneel afirma que suspender o leilão prejudica o planejamento do setor elétrico. A União também defende que a interrupção gera insegurança jurídica e afasta investidores, argumentando que as empresas vencedoras já iniciaram preparativos operacionais e financeiros, criando expectativas que não podem ser desconsideradas.
A suspensão liminar coloca em xeque um dos maiores leilões de energia da história recente do Brasil, enquanto o debate sobre os impactos tarifários e a legalidade do certame segue em aberto nos tribunais.