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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu, na quinta-feira, 7 de maio de 2026, a fabricação, a venda, a distribuição e o uso de dezenas de produtos de limpeza da marca Ypê. A medida foi publicada na Resolução 1.834/2026, no Diário Oficial da União, após fiscais sanitários identificarem falhas na linha de produção da Química Amparo, no município de Amparo (SP). A agência justificou a ação pela "possibilidade de ocorrência de contaminação microbiológica, ou seja, presença indesejada de microrganismos patogênicos", tornando os itens de limpeza uma ameaça à saúde pública. A bactéria responsável pelo alerta é a Pseudomonas aeruginosa, a mesma que motivou o recolhimento de sabões líquidos Ypê no final do ano anterior.
A nova inspeção, conduzida em conjunto pelo Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e pela Vigilância de Amparo, constatou falhas nas práticas de processamento que, segundo a Anvisa, "comprometem o atendimento aos requisitos essenciais de boas práticas de fabricação de saneantes". A Pseudomonas aeruginosa é um microrganismo encontrado na natureza, presente no solo e na água, com alta resistência a ambientes úmidos, o que facilita sua proliferação em linhas industriais de produtos líquidos. Segundo registros técnicos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a bactéria "tem grande capacidade de formar biofilmes em encanamentos, tornando a água consumida seriamente contaminada". Esse biofilme funciona como um escudo biológico que impede a ação de desinfetantes comuns e garante a sobrevivência e a multiplicação do patógeno nos reservatórios industriais.
A medicina classifica a Pseudomonas aeruginosa como uma bactéria oportunista, que afeta principalmente pessoas com o sistema imunológico debilitado, como pacientes em tratamento contra o câncer, transplantados, portadores de doenças autoimunes e pessoas com problemas respiratórios. O contato com a água contaminada pode provocar infecções cutâneas, problemas no trato urinário e infecções pulmonares. A Associação Paulista de Medicina (APM) alerta que "o maior cuidado deve ser evitar contato direto e prolongado do produto concentrado com a pele, especialmente em pessoas imunossuprimidas com feridas abertas".
Produtos interditados e como identificá-los
A Anvisa proibiu os lotes dos produtos Ypê cujos códigos numéricos impressos na embalagem terminam com o número 1. Os itens bloqueados incluem: - Lava Louças Ypê nas versões Clear Care, Toque Suave, Clear, Green e a versão com enzimas ativas - Lava Roupas líquidos Tixan Ypê nas variantes Combate Mau Odor, Cuida das Roupas, Antibac, Coco e Baunilha, Green, Maciez e Primavera, além das linhas Ypê Express, Power ACT e Premium - Desinfetantes Bak Ypê, Pinho Ypê e Desinfetante Atol O consumidor que identificar a numeração final 1 nos frascos deve interromper o uso imediatamente, evitando qualquer contato do líquido com as mãos, roupas ou louças.
A Anvisa orienta que o frasco seja separado em local isolado e que o comprador entre em contato com o Serviço de Atendimento ao Consumidor da Ypê para solicitar a devolução. A empresa tem a obrigação de fornecer as orientações para o recolhimento do material e garantir a troca ou o ressarcimento do valor pago. Como medida de segurança, recomenda-se lavar as mãos com sabonete neutro após tocar na embalagem. Como o alerta foi divulgado com os produtos já em circulação, parte dos consumidores pode ter utilizado os itens afetados sem saber.
Nesses casos, é necessário observar o surgimento de manchas vermelhas pelo corpo, coceiras, feridas cutâneas com cicatrização lenta, febre, ardência ao urinar ou dificuldade para respirar. Caso algum morador apresente esses sintomas após o uso dos produtos de limpeza, a recomendação é buscar atendimento médico e informar o contato com produtos contaminados pela bactéria, para que o tratamento com antibióticos seja direcionado corretamente. A Química Amparo publicou nota contestando a determinação governamental, afirmando que "possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-roupas líquido e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor".
A fabricante declarou ainda trabalhar em conformidade com as regras de segurança desde o início dos alertas voluntários e que "reafirma seu compromisso com a qualidade, a segurança e a transparência". A linha de produção em Amparo foi fechada e as vigilâncias sanitárias estaduais e municipais seguem investigando a infraestrutura e os padrões de higiene da fábrica. As autoridades não descartam a identificação de contaminação em outros lotes ou marcas do mesmo grupo e recomendam que a população acompanhe os novos boletins de saúde que o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária deve emitir nos próximos dias.