
Raúl Castro - Imagem: Norlys Perez
Raúl Castro, ex-presidente de Cuba, foi formalmente acusado nos Estados Unidos nesta quarta-feira (20/5), segundo informações divulgadas pela agência Reuters.
O ex-líder cubano, de 94 anos, que governou a ilha entre 2008 e 2018 após o afastamento de seu irmão Fidel Castro por motivos de saúde, segue sendo uma figura influente no sistema político cubano mesmo após deixar o cargo.
De acordo com os autos, Raúl Castro é acusado de quatro homicídios, dois crimes de destruição de aeronave e um crime de conspiração para matar cidadãos americanos.
Outras cinco pessoas também são citadas como rés em uma moção dos EUA para tornar pública a acusação.
A medida ocorre em meio ao aumento da pressão do governo do presidente Donald Trump sobre Cuba e ao discurso de mudança de regime na ilha.
As acusações e o episódio de 1996
As acusações contra Raúl Castro estão ligadas ao episódio de 1996, quando aviões militares cubanos derrubaram aeronaves operadas por um grupo de exilados cubanos, segundo informações repassadas à Reuters por um integrante do Departamento de Justiça dos EUA sob condição de anonimato.
As aeronaves pertenciam ao grupo Brothers to the Rescue ("Irmãos ao Resgate"), formado por cubanos anticastristas exilados nos EUA.
Os quatro tripulantes morreram, três deles cidadãos americanos.
O escritório do procurador federal em Miami anunciou um evento previsto para esta quarta-feira, às 14h (horário de Brasília), em homenagem às vítimas do caso.
O Departamento de Justiça dos EUA também informou que faria um anúncio oficial relacionado à cerimônia, sem antecipar detalhes.
Historicamente, acusações formais feitas pelos EUA contra líderes estrangeiros são incomuns.
"Os Estados Unidos não tolerarão um estado pária que abrigue operações militares, de inteligência e terroristas estrangeiras hostis a apenas 145 quilômetros do território americano", disse Trump em comunicado divulgado na quarta-feira.
Troca de críticas entre autoridades de EUA e Cuba
Horas antes do anúncio das acusações, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, divulgou uma mensagem em vídeo direcionada ao povo cubano, na qual afirmou desejar construir uma "nova relação" entre os dois países.
Filho de imigrantes cubanos, Rubio declarou que a Casa Branca estaria disposta a oferecer US$ 100 milhões em ajuda humanitária à ilha.
Falando em espanhol, o secretário afirmou que alimentos e medicamentos deveriam ser distribuídos pela Igreja Católica ou por organizações de caridade consideradas confiáveis, responsabilizando o governo cubano pela crise marcada por escassez de combustível, alimentos e frequentes apagões.
Em resposta, o chanceler cubano Bruno Rodríguez Parrilla chamou Rubio de "porta-voz de interesses corruptos e vingativos", mas não descartou uma eventual aceitação da ajuda financeira oferecida pelos Estados Unidos.
"Ele continua falando sobre um pacote de ajuda de 100 milhões de dólares que Cuba não rejeitou, mas cujo cinismo é evidente diante do efeito devastador do bloqueio econômico e do estrangulamento energético", escreveu Rodríguez em publicação nas redes sociais.
O chanceler também afirmou que o país não mudará sua posição diante das pressões americanas.
"Apesar do embargo, das sanções e das ameaças de uso da força, Cuba continua em um caminho de soberania rumo ao seu desenvolvimento socialista", declarou.
Raúl Castro e a escalada de tensão entre Cuba e EUA
Nascido em 1931, Raúl Castro foi uma das principais figuras da revolução cubana ao lado de seu irmão Fidel, participando da guerrilha que derrubou o então presidente Fulgencio Batista, apoiado pelos EUA.
Anos depois, Raúl também teve papel importante na derrota da invasão da Baía dos Porcos, operação organizada pelos Estados Unidos em 1961 para tentar derrubar o governo revolucionário cubano.
A abertura de um processo criminal contra Raúl Castro lembra o caso do ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, acusado pelos EUA por crimes ligados ao narcotráfico e atualmente preso em Nova York após ser capturado durante uma operação militar americana em Caracas.
O governo de Trump usou as acusações contra Maduro como justificativa para a incursão militar realizada em janeiro deste ano na Venezuela.
Nos últimos meses, Washington endureceu sanções econômicas e ampliou o bloqueio energético contra Cuba, agravando a crise na ilha e provocando apagões que ampliam a pior crise econômica enfrentada pelo país em décadas.
Trump afirma que o governo cubano é corrupto e, em março, chegou a declarar que "Cuba será a próxima" após a ofensiva contra a Venezuela.
Diante da crescente tensão, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel afirmou nesta semana que qualquer ação militar americana contra Cuba provocaria um "banho de sangue" e insistiu que a ilha "não representa ameaça" aos Estados Unidos.
O governo cubano, por sua vez, ainda não comentou diretamente as acusações contra Raúl Castro.