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A designação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas internacionais pelo Departamento de Estado norte-americano, na quinta-feira (28/5), representou a maior derrota do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sua relação com a administração de Donald Trump desde o tarifaço de 2025. A decisão encerrou uma disputa que durou mais de um ano e que, neste momento, parece ter sido vencida pelo grupo político liderado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. O governo brasileiro era contrário à medida desde o início.
O principal argumento era de que ela poderia comprometer a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo. Além disso, o governo alegava que a classificação contrariava a legislação brasileira, que distingue as atividades de facções criminosas do terrorismo propriamente dito.
A atuação bolsonarista em Washington
Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro defendia publicamente a medida há mais de um ano, apontando a posição contrária do governo Lula como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado. A decisão do Departamento de Estado veio um dia após Flávio Bolsonaro encerrar uma viagem a Washington, onde se encontrou com o presidente Donald Trump, o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.
Durante os encontros na capital norte-americana, Flávio afirmou ter defendido, para toda a equipe de Trump, que os Estados Unidos adotassem a medida contra as organizações criminosas brasileiras. "Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais", disse Flávio após o encontro com Marco Rubio, na quarta-feira.
Segundo ele, Rubio teria parecido até mais favorável à proposta do que o próprio Trump. Um integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que o governo reconhece que a decisão dos EUA foi resultado da ação da ala bolsonarista com acesso ao governo norte-americano. A interpretação é que essa ala teria atuado para criar um constrangimento ao governo Lula, levando a administração petista a se manifestar contra a medida para depois ser criticada por supostamente defender facções criminosas.
Cronologia de uma derrota
A ideia de sancionar organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há vários anos. Em 2021, a Secretaria do Tesouro já havia incluído o PCC como entidade designada, classificação que permite impor sanções a seus integrantes ou a empresas que mantivessem negócios com a facção.
O plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou força, de fato, após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025, sendo discutido internamente pelo Departamento de Estado com auxílio de oficiais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Entre o final de 2025 e o início de 2026, o Departamento de Estado enviou assessores ao Brasil para se reunir com promotores especializados no combate ao crime organizado.
Em maio de 2025, o governo norte-americano enviou o então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado, David Gamble, e o assessor Ricardo Pitta ao país. Pitta chegou a se reunir com a família Bolsonaro que, segundo Flávio, já naquele momento defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas. O movimento foi monitorado pelo governo brasileiro, que via a possibilidade como uma potencial interferência norte-americana na política interna de combate ao crime organizado.
Em julho de 2025, quando Trump impôs o tarifaço sobre produtos brasileiros, a diplomacia brasileira temia que a medida sobre as facções pudesse ser adotada naquele momento, o que não ocorreu. O governo Lula tentou desmontar o discurso pró-designação argumentando que a classificação das facções como organização terrorista não seria efetiva no combate ao crime organizado.
Em setembro de 2025, Lula criticou a possível medida em seu discurso na Assembleia Geral da ONU. "É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento", afirmou o presidente, em referência a ataques norte-americanos a embarcações na costa de países latino-americanos como Venezuela e Colômbia.
A possibilidade de designação continuou a ser estudada até que, no dia 8 de março de 2026, o governo norte-americano estava prestes a adotar a medida. A notícia fez com que o governo brasileiro montasse uma espécie de "operação de emergência" para impedir a decisão. Naquele mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com Marco Rubio. Dois dias depois, um porta-voz do Departamento de Estado divulgou uma nota reiterando que o governo norte-americano considerava as duas facções como ameaças ao país.
"Os Estados Unidos consideram as organizações criminosas do Brasil — incluindo o PCC e o CV — como ameaças significativas à segurança regional, devido ao seu envolvimento no tráfico de drogas, na violência e no crime transnacional", dizia o texto. No dia 13 de março, o jornal Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um plano ao Brasil pedindo que o país adotasse medidas para extinguir o PCC e o CV. Nas semanas seguintes, o esforço da diplomacia brasileira pareceu surtir efeito e a designação não veio. O assunto, no entanto, voltou à tona com a visita de Flávio Bolsonaro a Washington, que culminou na decisão anunciada na quinta-feira.
O governo brasileiro pretende modular a resposta à medida adotada pelos EUA para evitar um desgaste ainda maior junto ao público interno a poucos meses das eleições. A resposta oficial do governo só deverá sair após reuniões internas que incluirão integrantes do Ministério das Relações Exteriores e da Presidência, com possibilidade de participação de outras pastas, como a da Fazenda.
Na resposta, o governo deverá defender medidas adotadas recentemente contra o crime organizado e afirmar que o país estaria aberto à cooperação internacional no combate às facções. Um dos aspectos que mais preocupa o governo são os possíveis impactos da medida sobre o sistema financeiro brasileiro. O governo teme que empresas ou bancos brasileiros possam ser sancionados por conta de eventuais vínculos comerciais, ainda que involuntários, com essas facções. Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula já reconheciam que, apesar de uma aproximação com Trump nos últimos meses, diversos setores do governo norte-americano demonstram preferência clara pela candidatura de Flávio Bolsonaro em relação à de Lula.