
Marcilio Alves: ''O poder da sigla EDI: entre o discurso, a prática e o desafio da coerência''
Como as marcas brasileiras podem transformar o discurso de Equidade, Diversidade e Inclusão em prática verdadeira
Pode ser que você ainda não esteja tão familiarizado com a sigla EDI: Equity, Diversity and Inclusion, ou em português, Equidade, Diversidade e Inclusão. Mas talvez você já tenha percebido como esses temas vêm ocupando cada vez mais espaço nas conversas sobre cultura, comportamento, consumo e marcas. Alguns movimentos no Brasil já começam, inclusive, a acrescentar mais uma letra a essa discussão: o “P” de pertencimento.
Mas antes de qualquer novo modismo corporativo, talvez seja importante fazermos uma pergunta simples: as marcas brasileiras estão realmente preparadas para viver isso na prática ou ainda estamos presos a campanhas bonitas e discursos publicitários emocionalmente bem produzidos?
Durante muitos anos, as marcas no Brasil se preocuparam principalmente em vender produtos, serviços e construir reputação. Mas existe uma transformação silenciosa acontecendo no comportamento das pessoas, especialmente das novas gerações, que começa a exigir algo mais profundo das empresas: posicionamento, coerência e responsabilidade social. E é justamente neste ponto que entram os debates sobre EDI.
Aqui mora um dos maiores desafios contemporâneos do branding. Porque falar sobre diversidade é relativamente fácil. Difícil é transformar isso em cultura, contratação, liderança, fornecedores, comunicação e comportamento organizacional.
O consumidor atual percebe rapidamente quando uma marca apenas “pega carona” em pautas sociais. E isso cria um risco enorme: o da incoerência. Vivemos uma era em que as marcas deixaram de ser apenas empresas para se tornarem agentes culturais. Elas influenciam comportamento, linguagem, tendências e até visões de mundo. E, justamente por isso, passam a ser cobradas de forma proporcional ao seu tamanho e relevância.
No Brasil, os desafios são ainda mais complexos.
Somos um país extremamente diverso culturalmente, regionalmente e socialmente. Porém, muitas vezes essa diversidade não aparece nas lideranças corporativas, nas campanhas publicitárias, nos espaços de decisão ou até mesmo na forma como determinados públicos são representados.
E aqui existe um ponto importante: diversidade não pode ser apenas estética.
Não basta colocar pessoas diferentes em uma fotografia institucional se elas não possuem voz, oportunidade, crescimento ou pertencimento real dentro da organização. Na minha experiência no atendimento a grandes empresas e empresas ligadas ao setor público, aprendi que inclusão verdadeira exige desconforto organizacional, como a revisão de processos, missão, visão, critérios de contratação e até da própria cultura de liderança. E isso não sempre é simples.
Implementar políticas de EDI também traz desafios internos. Há resistência cultural, polarização social, medo de posicionamento e até insegurança sobre como abordar determinados temas sem gerar crises ou interpretações equivocadas. Muitas marcas ficam paralisadas exatamente por isso.
Hoje, o silêncio também comunica e o maior erro seja acreditar que neutralidade ainda existe. Ao mesmo tempo, as empresas que conseguem tratar diversidade e inclusão de forma genuína acabam construindo algo extremamente valioso no branding contemporâneo: relevância emocional.
Pessoas desejam se conectar com marcas que respeitem identidades, diferenças, histórias e realidades. Isso fortalece reputação, aproxima consumidores, melhora clima organizacional e cria vínculos mais profundos entre marcas e comunidades.
Por isso, algumas das marcas mais admiradas do mundo vêm investindo cada vez mais em cultura organizacional e não apenas em publicidade. Um exemplo é o gigantesco grupo de luxo LVMH, responsável por marcas como Louis Vuitton, Dior, Fendi e Givenchy, além de outras dezenas de maisons ao redor do mundo. Em 2018, o grupo criou o “LVMH Inclusion Index” ou “Índice de Inclusão”, iniciativa desenvolvida para reconhecer, estimular e mensurar ações de diversidade e inclusão dentro das empresas do grupo, buscando ampliar o equilíbrio de gênero e fortalecer uma cultura organizacional mais diversa e representativa.
Portanto existe ainda um impacto importante dentro das próprias empresas. Ambientes mais diversos tendem a gerar mais criatividade, inovação e múltiplas perspectivas na solução de problemas. Quando diferentes vivências ocupam a mesma mesa, surgem novos olhares, repertórios e possibilidades.
Contudo, talvez, não sejam as marcas que mais falam sobre diversidade que serão lembradas, mas aquelas que conseguiram transformar respeito em prática cotidiana. E quem sabe, o consumidor contemporâneo esteja justamente tentando descobrir isso: quais marcas apenas aprenderam a falar sobre inclusão…e quais realmente aprenderam a incluir.
Vamos Refletir?
❍-❐