IPCA-15 sobe e pressiona inflação dos alimentos

Foto: Foto: Ramiro Furquim/Sul21 Paulo Niederle
Índice de maio registra 0,62%, acima do esperado, com alimentos e energia como principais vilões da alta de preços
A inflação brasileira segue em trajetória de aceleração e os sinais ficaram ainda mais evidentes com a divulgação do IPCA-15 de maio, nesta quarta-feira (27), pelo IBGE. O índice registrou alta de 0,62% no mês, acima da mediana das expectativas do mercado, que era de 0,57%, e representa a maior variação para o mês de maio desde 2016. Com o resultado, as previsões para o IPCA cheio de maio avançaram de 0,45% para 0,6%.
O IPCA-15 de maio acumulou alta de 4,6% em 12 meses, sendo a primeira vez desde outubro de 2025 que o índice não ultrapassa o teto de 4,5% do intervalo de tolerância do sistema de metas de inflação. Ainda assim, as projeções indicam que a inflação não recuará para dentro desse intervalo no restante de 2026, com as previsões para o ano já rondando 5,5%. O principal desvio em relação às estimativas veio dos alimentos, que recuaram menos do que o esperado em relação ao mês anterior.
O maior peso da alta do IPCA-15 de maio recaiu sobre a alimentação no domicílio e as tarifas de energia elétrica, reforçando o desconforto da população com a chamada "inflação do supermercado". A tendência é de que esse desconforto se acentue, com ênfase no último trimestre do ano. Dois fatores externos explicam as principais pressões inflacionárias registradas neste segundo trimestre: os efeitos da guerra no Oriente Médio e condições climáticas fora do padrão histórico. O clima tem afetado o orçamento doméstico em duas frentes: a falta de chuvas levou à troca da bandeira verde pela amarela nas tarifas de energia elétrica, e a redução na oferta de alimentos impulsionou os preços no setor. Já a guerra impactou os custos de insumos agrícolas, o transporte de alimentos, além de pressionar preços de serviços e bens industriais.
Mesmo com os preços de bens industriais subindo menos em maio do que em abril, os núcleos de inflação em serviços e bens industriais continuam em alta, já ultrapassando a variação de 6% em 12 meses. Os núcleos registram a evolução de preços descontados os efeitos sazonais e fatores inesperados. Vale destacar a diferença entre a inflação medida pelos índices oficiais e a "inflação do supermercado".
A primeira é apurada com base em levantamentos padronizados de orçamentos domésticos; a segunda é a inflação percebida pelas pessoas, que remete à cesta de compras de cada consumidor, observada principalmente nos preços de alimentos em supermercados e feiras livres. Nessa percepção cotidiana, muitas vezes se confunde inflação — conceito que considera a alta de preços — com preço alto.
O economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, projeta que os preços dos alimentos devem encerrar 2026 com alta próxima de 8%, em forte contraste com a elevação de apenas 1,4% registrada em 2025. No início do ano, Romão estimava alta de 3% para o subgrupo "Alimentos no domicílio". Segundo ele, essa escalada se deve a uma combinação adversa de fatores: "Primeiro, o efeito inicial da guerra nos custos de logística e alguns impactos climáticos inesperados; mais à frente, o peso do custo dos fertilizantes; e, fechando o quadro, os fortes impactos previstos do fenômeno El Niño, com força maior no último trimestre do ano." — Fábio Romão, economista da consultoria 4intelligence Esse cenário de inflação pressionada consolida a expectativa de que o Copom (Comitê de Política Monetária) mantenha um ciclo de cortes na taxa básica de juros (Selic) mais lento e mais curto, estimado pelo mercado para se encerrar em 13,25% ao ano.