
Frank Martins: ''Classificação sofrida do Cruzeiro contra o Goiás é só o esquenta para a decisão diante do Boca''
A torcida celeste precisa entender que, neste momento, o principal é sobreviver à maratona até a parada da Copa. O desempenho tem sido bom, ainda que oscilante, algo compreensível para um elenco curto, mal distribuído e espremido por uma sequência pesada. Mas, se quiser brigar por título no segundo semestre, a diretoria terá que contratar na janela do meio do ano.
Havia certa saudade, é verdade, de um mata-mata desses. Jogo amarrado, sofrido, catimbado, com cara de Copa do Brasil e aquele roteiro que faz o torcedor passar raiva, levantar do sofá, reclamar do juiz, do passe errado, da substituição, da chance perdida e, no fim, respirar aliviado. Não foi bonito o tempo inteiro, talvez nem pudesse ser. Mas foi suficiente. E, em mata-mata, muitas vezes, suficiente é tudo o que importa.
O Cruzeiro se classificou contra o Goiás em uma noite que serviu mais como teste de resistência do que como exibição de futebol. E é justamente aí que está o ponto. O time de Artur Jorge vive uma sequência pesada, daquelas que cobram do corpo, da cabeça e do elenco. Foram três jogos em sete dias, com viagens para o Chile e para Salvador no meio do caminho. Em maio, serão nove compromissos. Uma loucura para qualquer equipe, ainda mais para uma que ainda está tentando se reorganizar no meio da temporada.
Por isso, antes de qualquer análise mais dura, é preciso olhar o contexto. O Cruzeiro vem se recuperando no Campeonato Brasileiro, está classificado na Copa do Brasil e ainda tem pela frente a missão de seguir vivo na Libertadores. Se conseguir passar também no torneio continental, talvez seja caso de renovar com Artur Jorge por mais uns dez anos, exageros de torcedor à parte. O trabalho dele, olhando para o banco de reservas que possui, para o pouco tempo de treino e para jogadores importantes ainda longe do melhor nível físico, tem sido muito satisfatório.
O Cruzeiro de Artur Jorge já parece ter mais repertório do que a equipe que vinha sendo conduzida por Leonardo Jardim. Há mais alternativas, mais competitividade, mais clareza em alguns comportamentos e uma sensação de que o time sabe melhor o que quer dentro de campo. Não significa que tudo esteja resolvido. Longe disso. Mas há evolução. E evolução, em uma temporada atropelada pelo calendário, não pode ser ignorada.
Com todos os titulares em campo, o Cruzeiro tem mostrado capacidade de competir bem. Contra o Goiás, criou oportunidades, teve momentos de superioridade e poderia ter ampliado o placar em algumas situações. O problema aparece quando o jogo pede banco. E aí a realidade fica escancarada: falta elenco. Falta peça de reposição. Falta jogador para manter o nível quando os principais precisam descansar ou quando a partida exige uma mudança mais qualificada.
Essa não é uma descoberta de agora. É um problema que vem desde o ano passado e que não foi resolvido como deveria. O time titular pode brigar, competir e incomodar. O elenco, no entanto, ainda não sustenta uma temporada inteira com Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores. A diferença é grande demais. E, em calendário brasileiro, essa conta chega rápido.
Por isso, a classificação contra o Goiás precisa ser comemorada, mas não pode servir de ilusão. O Cruzeiro está vivo, e isso é ótimo. Mas estar vivo não significa estar pronto. A diretoria não pode cair na mesma armadilha de antes, quando uma boa sequência mascarou necessidades óbvias do grupo. O bom trabalho de Artur Jorge não diminui a urgência por reforços. Pelo contrário: aumenta. Se o treinador está conseguindo tirar mais do elenco, imagine o que poderia fazer com um grupo mais equilibrado, mais profundo e mais confiável.
A torcida também precisa ajustar a expectativa para este momento específico da temporada. Agora, o negócio é sobreviver. Ir jogo a jogo no Brasileiro, continuar vivo nas copas e atravessar essa maratona sem perder o rumo. O desempenho pode oscilar, e vai oscilar. É natural. O que não pode oscilar é a competitividade. O Cruzeiro precisa seguir pontuando, passando de fase e entendendo que, até a parada da Copa, cada jogo será uma pequena batalha.
E as próximas batalhas não serão simples. Palmeiras e Boca Juniors fora de casa aparecem no horizonte como desafios enormes. O duelo contra o Boca, especialmente, carrega peso de decisão continental, ambiente hostil e tudo aquilo que costuma transformar um jogo de Libertadores em teste de maturidade. A classificação sofrida contra o Goiás, nesse sentido, pode até ter vindo em boa hora. Foi um lembrete de que nem sempre se ganha jogando bem. Às vezes, é preciso ganhar suportando o caos.
O Cruzeiro está nesse ponto da temporada: entre a evolução e o limite, entre a esperança e a necessidade, entre o time que compete e o elenco que ainda não acompanha. Artur Jorge tem feito um trabalho consistente, mas não faz milagre sozinho. Se o clube quiser realmente beliscar algum título em 2026, a janela do meio do ano será decisiva. Precisa chegar gente. E gente para jogar, não apenas para compor grupo.
Enquanto isso, que a torcida entenda o momento. Não é hora de exigir espetáculo a cada três dias, depois de viagem, desgaste e pouco treino. É hora de cobrar entrega, organização e resultado. É hora de sobreviver.
Porque, no fim das contas, maio está com cara de prova de resistência.
E o Cruzeiro, até aqui, segue de pé.
