
EDILSON RODRIGUES/AGENCIA SENADO
Em entrevista à GloboNews, o senador Flávio Bolsonaro admitiu que o gestor do fundo que recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro é advogado de seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro. O senador, pré-candidato à Presidência, negou ter intimidade com Vorcaro e afirmou que os recursos foram integralmente destinados à produção do filme sobre o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro repetiu diversas vezes durante a entrevista que os valores solicitados ao banqueiro Daniel Vorcaro tiveram como único destino o filme sobre o pai.
O senador também negou ter financiado a estadia do irmão Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e confirmou a participação do advogado Paulo Calixto, que representa Eduardo, na operação financeira. A jornalista Malu Gaspar questionou Flávio Bolsonaro sobre as mensagens do Intercept, que mencionam a negociação para envio de recursos de Daniel Vorcaro e da Entre Investimentos para uma conta do advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O senador respondeu diretamente: "Não foi, Malu. Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção deste filme..."
Quando questionado sobre o nome do fundo, Flávio Bolsonaro disse não saber ao certo qual era. Após Malu Gaspar mencionar que o fundo, chamado Heavengate, estava registrado no nome do advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, o senador justificou a escolha: "Esse dinheiro é integralmente utilizado para fazer o filme. Agora, para você botar de pé uma estrutura como essa, você criar um fundo, você cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado que entenda dessa área, e o advogado é um advogado de confiança do Eduardo Bolsonaro. Alguém que cuidou de todo o seu procedimento, do seu processo de green card. A pessoa que tem expertise, se não me engano, de quase 30 anos nessa área na advocacia nos Estados Unidos. É um brasileiro, facilita a comunicação. Obviamente, você tem que buscar algum profissional nessa área que possa fazer isso. Então, está dentro do contexto do filme."
Flávio Bolsonaro também negou contradição entre suas declarações e as do produtor do filme, o deputado Mario Frias, que afirmou não haver dinheiro de Vorcaro na produção. O senador alegou que um acordo de confidencialidade no contrato do filme o impediu de revelar publicamente a relação com Daniel Vorcaro: "O que os advogados me passaram agora — isso está vindo à tona — é que, recentemente, tinha sim esse contrato de confidencialidade, isso eu já sabia. Agora, o investidor... Isso que dá divergência da nota lá que foi feita pela produtora, se não me engano, é apenas uma questão ali de formalização. Como ele não faz parte, o Daniel Vorcaro não faz parte de nenhuma assinatura de contrato, não tem absolutamente nada com a assinatura dele, tecnicamente, esse dinheiro não foi dele. Essa que é a divergência que existe. Acho que é apenas de formalidade, mais uma vez, e repito aqui, insisto."
A jornalista Julia Duailibi pressionou Flávio Bolsonaro sobre o momento em que ele teria solicitado dinheiro ao banqueiro, apontando as datas das tratativas em relação aos problemas de Vorcaro com a Justiça: "Só dando as datas certinhas, aí o senhor põe a sua argumentação. Olha só: 3 de setembro de 2025, o Banco Central publicamente se posiciona contra o negócio com o BRB. No dia 8 de setembro, portanto cinco dias depois, o senhor cobra ele por dinheiro. Depois a polícia abre um inquérito no dia 30 de setembro para investigar os rolos do Daniel Vorcaro. As conversas se estendem, senador, até 16 de novembro. Quer dizer, que ele era um banqueiro enrolado, está claro. E que o senhor, um homem público, senador da República, bateu na porta dele para pedir o dinheiro de um banqueiro que estava enrolado, também está claro porque está registrado. E ainda tem a fala final: "Estarei sempre contigo".
O senhor diz "Estarei sempre contigo" e ele fala "Amém", no meio desse contexto todo em que o rolo já era sabido." Flávio Bolsonaro rebateu as afirmações e disse que as irregularidades envolvendo Vorcaro não eram de seu conhecimento no período das negociações. Segundo o senador, o último pagamento feito pelo banqueiro ocorreu em maio de 2025 e, a partir do momento em que surgiram informações públicas sobre Vorcaro, o fundo foi isolado e as autoridades foram comunicadas. O senador afirmou ainda que o fundo solicitou explicações à empresa responsável pelos aportes, mas não obteve resposta.
"Meu irmão" não significa intimidade, diz senador. Flávio Bolsonaro negou qualquer proximidade com Daniel Vorcaro e atribuiu as expressões utilizadas nas conversas ao seu linguajar habitual: ""Meu irmão", "irmãozinho" não significa intimidade. É uma forma como é... É o meu linguajar, como eu falo com as pessoas, ué. Qual o problema de falar assim com ele? Não tenho intimidade, não tenho liberdade, nunca viajei com ele, nunca saí para tomar vinho. Nossas famílias não se conhecem."
O senador confirmou ainda que chegou a ser cogitado levar o ex-presidente Jair Bolsonaro a um jantar na casa de Vorcaro para assistir a um documentário, mas que o pai não compareceu ao evento. Quando Julia Duailibi questionou a contradição entre a alegada falta de intimidade com o banqueiro e a possibilidade de levá-lo ao encontro, Flávio Bolsonaro respondeu: "Não é um banqueiro enrolado, é um investidor de um filme." A entrevista de Flávio Bolsonaro à GloboNews ocorre em meio à repercussão das mensagens que revelaram a cobrança de recursos a Vorcaro para a conclusão do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O banqueiro teria chegado a pagar R$ 61 milhões pela produção, segundo informações divulgadas anteriormente.