
Deolane Bezerra é advogada e influencer - Foto: Redes Sociais/Reprodução
Deolane Bezerra foi presa pela segunda vez na manhã desta quinta-feira (21), em São Paulo, durante uma operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil voltada ao combate à lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). A operação, batizada de Vérnix, também mirou parentes e pessoas ligadas ao líder da facção Marco Herbas Camacho, conhecido como Marcola, que já se encontra preso há anos.
A advogada e influenciadora digital, que acumula cerca de 21,7 milhões de seguidores no Instagram, tornou-se figura pública após a morte do marido, o funkeiro MC Kevin, em maio de 2021. Desde então, passou a ampliar sua presença nas redes sociais, onde ostentava mansões e carros de luxo, além de atuar no mercado de apostas online e publicidade digital.
Quem é Deolane Bezerra
Deolane Bezerra ganhou notoriedade nacional após a morte de MC Kevin, que faleceu em 16 de maio de 2021, aos 23 anos, depois de cair da varanda de um quarto de hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde estava hospedado com a esposa. A perícia da Polícia Civil do Rio concluiu que a morte foi acidental, sem indícios de agressão ou luta corporal no quarto.
Após o episódio, Deolane Bezerra intensificou sua presença nas redes sociais, participou de programas de televisão e passou a atuar no mercado de apostas online e publicidade digital. Nas plataformas, ela mesma fazia questão de exibir, em detalhes, cada uma das mansões onde morou ou mora atualmente, na região de Alphaville, em Barueri, na Grande São Paulo, além de carros de luxo. Segundo investigações da Polícia Civil de Pernambuco, a influenciadora investiu R$ 65 milhões em 12 imóveis de luxo nos últimos três anos.
A primeira prisão e a Operação Integration
A rotina de ostentação chamou a atenção das autoridades e, em setembro de 2024, Deolane Bezerra foi presa pela primeira vez durante a Operação Integration, conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco. A operação investigava um suposto esquema de lavagem de dinheiro e jogos ilegais ligados a plataformas de apostas online, as chamadas bets.
As suspeitas contra Deolane Bezerra incluíam lavagem de dinheiro, participação em organização criminosa e ligação financeira com empresas investigadas no setor de apostas e jogos ilegais. Na ocasião, as autoridades bloquearam cerca de R$ 2,1 bilhões em bens e ativos dos investigados. A influenciadora ficou presa por cinco dias no Recife e, em seguida, obteve habeas corpus, passando a responder em liberdade com medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. A defesa dela negou qualquer irregularidade e afirmou que ela era vítima de perseguição e abuso de autoridade.
A Operação Vérnix e a segunda prisão
Deolane Bezerra havia passado as últimas semanas em Roma, na Itália, e seu nome chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol. Ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20) e foi presa no dia seguinte. Agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em sua casa, em Barueri, e em outros endereços ligados a ela.
O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, considerado um filho de criação por Deolane Bezerra, e um contador também foram alvos de busca e apreensão. Além de Deolane Bezerra, foram alvo da Operação Vérnix o irmão de Marcola, Alejandro Camacho, e dois sobrinhos dele: Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Everton de Souza, conhecido como "Player", apontado como operador financeiro da organização, também foi preso. No total, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão.
Dois alvos de prisão estariam no exterior: Paloma na Espanha e Leonardo na Bolívia. Marcola e Alejandro Camacho estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e foram comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva. Segundo a investigação, o esquema de lavagem envolve uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau (SP), controlada pela cúpula da facção criminosa, considerada a maior do país. Também foi determinado o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros dos investigados.
A investigação teve início em 2019, com a apreensão pela Polícia Penal de bilhetes e manuscritos encontrados com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos, cada um revelando uma nova camada da estrutura criminosa investigada. O primeiro inquérito focou nos dois presos com os manuscritos. A análise do material permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de alta posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos.
Entre os trechos analisados, chamou atenção a citação a uma "mulher da transportadora", que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa. Essa menção originou o segundo inquérito, que levou à identificação de uma empresa sediada em Presidente Venceslau, reconhecida como empresa de fachada usada para lavagem de dinheiro. Em 2021, a Operação Lado a Lado revelou movimentações financeiras incompatíveis e crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente.
A apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, indicado como operador central, trouxe novas informações e abriu uma frente de investigação sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com Deolane Bezerra. Ciro Cesar Lemos está foragido, assim como a esposa. As imagens dos depósitos que favoreciam contas de Deolane Bezerra e de Everton de Souza foram localizadas no aparelho celular apreendido na casa de Ciro César Lemos. Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, a Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e a seus familiares, utilizando as contas de Everton de Souza e de Deolane Bezerra para as transações.
Deolane Bezerra como recebedora de dinheiro do PCC
Entre 2018 e 2021, Deolane Bezerra recebeu em sua conta física R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil, técnica conhecida como smurfing. Segundo a polícia, o intermediador era Everton de Souza, o "Player", que indicava a conta de Deolane para "fechamentos" mensais. A investigação também identificou quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane Bezerra, no valor total de R$ 716 mil, por uma empresa que se apresenta como banco de crédito e que tem como responsável um homem morador da Bahia que recebe em torno de um salário mínimo ao mês.
A análise das contas a débito, tanto de Deolane quanto de sua empresa, não identificou nenhum pagamento relacionado a esses créditos, o que é apontado pela investigação como indício de ocultação e dissimulação de recursos do PCC. Também não foram identificadas prestações de serviço como advogada que justificassem os valores repassados. Ao decretar as prisões, a Justiça de São Paulo entendeu que havia provas do crime e indícios fortes de autoria contra todos os investigados, e que a prisão era necessária para a garantia da ordem pública, diante do risco real de destruição de provas e interferência na investigação.
A Justiça também considerou que outras medidas cautelares seriam insuficientes diante da sofisticação do grupo e do risco de fuga, agravado pelo fato de alguns investigados estarem no exterior. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome de Deolane Bezerra, valor referente ao que ela não comprovou a origem, com indicativos de lavagem de dinheiro.