
Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) se tornou alvo de mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro envolvendo o Banco Master. A ironia do caso reside em uma declaração pública feita pelo próprio parlamentar em março: ele afirmou que renunciaria ao mandato caso surgisse "alguma denúncia comprovada" contra ele relacionada ao escândalo. A declaração foi feita em 16 de março, durante agenda no Piauí, onde Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, participou do lançamento da pré-candidatura de Joel Rodrigues ao governo do estado.
O momento coincidiu com o avanço das revelações sobre a relação entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Na ocasião, já haviam sido divulgadas mensagens em que Vorcaro se referia a Ciro como "amigo da vida" e relatava encontros e conversas com o parlamentar. Ao comentar o caso, Ciro Nogueira tentou separar sua trajetória política das investigações que cercavam o banqueiro: — O CPF dele é um, o meu é outro. O que vai nortear a minha trajetória de vida é a minha história — afirmou.
Em seguida, o senador elevou o tom ao abordar a possibilidade de ser formalmente implicado nas investigações: — Se surgir algum dia na vida alguma denúncia que seja comprovada, eu, enquanto senador Ciro, renuncio ao meu mandato. Eu jamais vou voltar ao meu estado, olhar o povo da minha terra olho no olho, se eu não tiver autoridade e a confiança desse povo — disse. Nesta quinta-feira, Ciro Nogueira foi alvo de mandados de busca e apreensão na nova fase da Operação Compliance Zero. Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça aponta que investigadores identificam o senador como suposto "destinatário central" de vantagens indevidas pagas por pessoas ligadas ao Banco Master.
Entre os elementos citados pela Polícia Federal está uma emenda apresentada por Ciro Nogueira em 2024 para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), proposta apelidada nos bastidores do Senado de "emenda Master". A emenda previa a ampliação do limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, mecanismo que garante parte dos investimentos em caso de quebra de instituições financeiras.
A proposta, no entanto, não chegou a ser aprovada. Segundo a PF, mensagens apreendidas indicam que o texto da emenda foi elaborado dentro do próprio banco e encaminhado ao senador. Em uma das conversas citadas na investigação, o banqueiro Daniel Vorcaro comemora a apresentação da proposta afirmando: "Saiu exatamente como mandei". As investigações sobre Ciro Nogueira e sua suposta relação com o Banco Master ganham novo peso diante das declarações públicas feitas pelo próprio senador meses antes de se tornar alvo direto da Polícia Federal.