
Foto: Netflix/Reprodução
A Copa do Mundo de 1970 e a conquista do tricampeonato pelo Brasil são histórias que muitos conhecem de cor. Os gols, as jogadas e os resultados já foram revistos inúmeras vezes. O que pouca gente conhece, porém, são os bastidores dessa jornada, numa era em que cada momento não era registrado e compartilhado instantaneamente nas redes sociais. É exatamente esse universo fora de campo que Paulo e Pedro Morelli, pai e filho, reinventam em "Brasil 70 - A Saga do Tri", minissérie de ficção da Netflix que estreia nesta sexta-feira (29/5).
O jovem ator e modelo Lucas Agrícola é quem dá vida ao Rei na série. "É um peso gigante contar a história desse cara que é um ícone mundial, é uma responsabilidade muito grande", afirma o ator, que até então era pouco conhecido do grande público, mas que certamente está prestes a encarar uma projeção internacional. A chegada de Lucas ao papel foi quase acidental: trabalhando como modelo, ele estava cadastrado em um aplicativo de elenco quando foi contactado para fazer um teste. No dia marcado, seu carro quebrou. "Liguei pra galera e falei "não vai dar". Tem essa superstição, né, quando começa assim é melhor nem ir", relembra.
A produção, no entanto, mandou um carro para buscá-lo. "Eu fiz todos os testes, sabia que era uma série de futebol e pensei "vou aparecer uns três minutinhos", eu não sabia que ia ser o Pelé", revela Lucas. Em conversa com a reportagem, Bruno Mazzeo interrompeu o colega, rindo: "Com esta cara, tu achou que seria quem?" A preparação física de Lucas Agrícola para encarar dias de até 12 horas com chuteiras nos pés durante as filmagens envolveu corrida, academia e toda uma estratégia de recuperação para evitar lesões.
"Mas graças a Deus eu estava preparado fisicamente, porque já estava jogando futebol amador na minha cidade - a famosa várzea", brinca o interiorano. O ator novato também destacou as dificuldades de filmar futebol. "Era uma coreografia mesmo, precisava que outros jogadores acertassem pra eu também acertar", explica.
"O adversário também tinha que acertar", emenda Bruno Mazzeo, que teve o privilégio de gravar a maioria de suas cenas no banco, enquanto colegas de elenco como o próprio Lucas, Ravel Andrade (Tostão), Caio Cabral (Carlos Alberto Torres), Fillipe Soutto (Gerson), Gui Ferraz (Jairzinho) e Daniel Blanco (Rivelino) corriam e saltavam sem parar em longas diárias de gravação. "Às vezes todo mundo acertava e os câmeras não pegavam", conta Lucas. "É a série mais bem filmada de futebol que já teve", defende Bruno Mazzeo. "Tinha vários carrinhos que iam correndo atrás dos jogadores em várias velocidades, tinha drone, uma loucura", detalha. Apesar do trabalho primoroso de computação gráfica, algumas cenas de jogos foram gravadas com 800 figurantes na torcida, e o set precisava ficar em silêncio aguardando, por exemplo, um lançamento de Gerson para Pelé dominar no peito e marcar o gol. "Eu olhava para os lados e estava todo mundo esperando a minha jogada", relembra Lucas, ao que Bruno Mazzeo emenda: "Não é fácil ser Rei".
Na memória coletiva do brasileiro, o Zagallo mais conhecido é o da Copa de 1994, o do "vocês vão ter que me engolir". Mas em 1970, ele era um técnico com apenas dois anos de carreira no cargo, 40 anos de idade e nenhum título como treinador. Não há registros suficientes para saber se ele falava alto ou baixo, se gritava no vestiário ou se preferia conversas individuais com os jogadores. "Esse foi o grande desafio e, ao mesmo tempo, a maior delícia como ator: pegar um cara que eu conheci já consagrado, com três Copas, cheio de segurança, e fazer ele com 40 anos, dois anos de carreira como técnico, sem nenhum título, pegando a seleção em cima da hora", diz Bruno Mazzeo, que também passou por teste para o papel e ressalta a escassez de registros em vídeo do Zagallo na época. Foi preciso muita pesquisa para construir o personagem. "A gente ficou tentando imaginar como seria esse Zagallo.
Eu vi alguns documentários que tinham jogadores falando sobre ele, e a partir daí fomos tentar montar esse quebra-cabeça e chegar num Zagallo que o público reconheça como esse Zagallo conhecido de 35 anos depois", explica o ator. A dupla demonstrou, tanto em cena quanto na entrevista, que trabalhou intensamente para chegar à sintonia do relacionamento entre Pelé e Zagallo. "Na preparação, a gente já começou a fazer muita coisa juntos", conta Bruno Mazzeo, lembrando que os dois haviam sido campeões do mundo jogando juntos.
"O Zagallo sabia que precisava do Pelé ali, e o Pelé, eu acho, confiou no Zagallo num momento em que ele (o Rei) estava em dúvida, tinha ficado no banco", afirmam os dois, um completando as frases do outro. Com estreia mundial marcada para esta sexta-feira (29/5) na Netflix, "Brasil 70 - A Saga do Tri" também serve de inspiração para a seleção atual. Os dois atores mandaram um recado aos jogadores que vão disputar o hexacampeonato na Copa do Mundo 2026. "Façam a lição de casa", aconselha Lucas Agrícola.
"Eu espero que essa série motive os nossos jogadores. Acho que eles têm que assistir, têm que entender como era o esporte naquele tempo, sem essa grana toda, sem esse marketing todo, sem esse business todo. E ao mesmo tempo ver ali a paixão do povo brasileiro e dos próprios jogadores em busca daquele título. Eu acho que pode ser motivador pra eles", provoca Bruno Mazzeo. A minissérie chega ao catálogo da Netflix como uma produção que une ficção e história, explorando os bastidores de uma das conquistas mais celebradas do futebol brasileiro, com um elenco que se dedicou intensamente para recriar os protagonistas daquele momento inesquecível.