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Violência contra mulheres: 900 vítimas atendidas diariamente em unidades de saúde brasileiras Aproximadamente 900 meninas e mulheres foram atendidas diariamente em unidades de saúde por todo o Brasil em 2025 após sofrerem algum tipo de violência, totalizando 330 mil registros no ano. Estes dados alarmantes foram revelados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e mostram a dimensão de um problema que persiste na sociedade brasileira. Os profissionais de saúde são legalmente obrigados a notificar todos os atendimentos relacionados à violência interpessoal, que inclui o uso intencional de força ou poder em interações diretas.
Esta obrigatoriedade aplica-se não apenas a mulheres, mas também a homens e grupos minoritários, como pessoas com deficiência e LGBTQIA+. Entre 2015 e 2025, as mulheres representaram 71% das notificações de violência interpessoal registradas, incluindo violência física, psicológica e sexual. Neste período, unidades de saúde públicas e privadas identificaram um total de 2,3 milhões de casos.
O perfil predominante das vítimas revela um padrão preocupante:
- Mulheres entre 20 e 49 anos, majoritariamente negras (pardas e pretas);
- Baixa escolaridade, geralmente sem completar o ensino médio;
- Agressões perpetradas por parceiros ou ex-parceiros íntimos;
- Violência ocorrida dentro do ambiente doméstico;
- Histórico de atendimentos médicos anteriores devido à violência.
É importante ressaltar que estes números diferem daqueles divulgados pela segurança pública, que se baseiam em boletins de ocorrência. Nos atendimentos médicos, mulheres adultas não são obrigadas a denunciar formalmente a violência sofrida, mesmo quando a relatam aos profissionais de saúde. A pesquisadora Camila Alves, especialista em violência e saúde da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, explica que nem todas as vítimas procuram atendimento médico. Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Senado e publicada no último ano, apenas 34% das mulheres buscaram algum tipo de assistência à saúde após sofrerem violência.
Alves destaca ainda que o aumento nas notificações de violência pelo Sistema Único de Saúde (SUS) não significa necessariamente um crescimento nos casos, mas pode refletir uma melhora na capacidade de identificação pelos profissionais de saúde. Apesar das diferenças metodológicas, as notificações das unidades de saúde convergem com o perfil apontado em dados de feminicídio. Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicado em março mostra que, entre 2015 e 2025, as vítimas de feminicídio no país eram predominantemente adultas, entre 30 e 49 anos, negras, agredidas por parceiros ou ex-parceiros íntimos dentro de casa, e com histórico de violência anterior. "A violência não é um evento isolado.
A violência por parceiro íntimo, muitas vezes, é sequencial. E o que a gente chama atenção é que isso pode ter uma escalada em termos de gravidade. Começa com a violência psicológica, mas pode evoluir até mesmo para a morte", alerta a pesquisadora Deborah Carvalho Malta, professora da UFMG e doutora em saúde coletiva associada à Abrasco. Os dados do Sinan revelam que 53% das meninas e mulheres que procuraram atendimento médico devido à violência nos últimos dez anos já haviam sido atendidas anteriormente pelo mesmo motivo.
Este percentual exclui casos de subnotificação, ou seja, informações ignoradas ou em branco. Dados preliminares de uma análise conduzida por Malta, em conjunto com outras pesquisadoras, indicam que parte significativa das mulheres com mais de uma notificação de violência tiveram os casos encerrados em óbito, evidenciando a gravidade da situação. O sistema de saúde tem como objetivo impedir que a violência evolua para o feminicídio. Há 25 anos, o Ministério da Saúde reconheceu formalmente a violência como um problema de saúde pública, estabelecendo que o setor deve ir além do tratamento de ferimentos, monitorando casos, capacitando profissionais e tentando impedir a recorrência da violência.
Na prática, quando um profissional identifica uma situação de violência, a notificação aciona uma cadeia de proteção que inclui encaminhamento para assistência social, orientação sobre medidas protetivas e conexão com outros serviços. No caso de mulheres adultas, a informação não é repassada automaticamente à polícia, mas elas recebem auxílio para fazer a denúncia se assim desejarem. "A gente não notifica para a rede policial porque, se o profissional de saúde faz isso sem a concordância da mulher, ele pode colocá-la em risco", explica Malta.
Um estudo publicado na revista The Lancet em 2025 mostrou que a violência por parceiro íntimo é o quarto maior fator de risco à morte prematura e invalidez de mulheres entre 15 e 49 anos no mundo. No Brasil, ocupa o terceiro lugar, enquanto a violência sexual na infância aparece em segundo.