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O agronegócio brasileiro está enfrentando um momento crítico de pressão financeira, evidenciado pelo aumento significativo nos pedidos de Recuperação Judicial. Segundo dados da Serasa Experian, o setor registrou 1.990 pedidos em 2025, o maior volume desde o início da série histórica em 2021, representando um aumento de 56,4% em relação a 2024, quando foram contabilizados 1.272 pedidos. Em 2023, foram apenas 534 solicitações, demonstrando uma escalada acelerada nos últimos anos. A crise no setor agrícola brasileiro está se manifestando não apenas no crescimento dos pedidos de Recuperação Judicial, mas também no aumento da inadimplência.
No terceiro trimestre de 2025, 8,3% da população rural estava inadimplente, um avanço de 0,9 ponto percentual na comparação anual. "O agro está passando por um momento delicado com o endividamento do produtor rural, não apenas do produtor, mas também das empresas que atuam no agronegócio. É sempre uma sequência em cadeia, o produtor rural está endividado, a indústria e a fábrica que comercializa insumos acabam sofrendo esse impacto também", explica Vinícius Cambraúva, professor da Harven Agribusiness School.
O aumento do endividamento no agronegócio é resultado de uma combinação de fatores que pressionam os produtores rurais. Um dos principais motivos está relacionado ao comportamento cíclico dos preços das commodities agrícolas. "Em culturas anuais quando o preço está alto, o produtor aumenta rapidamente a área plantada. Isso gera uma oferta maior no mercado e, como consequência, os preços caem. Esse movimento acaba pressionando a rentabilidade e pode levar ao endividamento", explica Cambraúva.
Este ciclo é particularmente comum em culturas como soja e milho, que permitem ajustes rápidos de produção. O problema surge quando os preços caem e muitos produtores já estão comprometidos com custos elevados e financiamentos em andamento. "A consequência a médio prazo é que alguns deles, por conta dos altos custos, diminuem a sua área plantada ou migram de atividade, saem, por exemplo, de grãos e vão para outra cadeia produtiva. Quando esse efeito acontece, ou seja, o preço mais baixo leva ao desestímulo da produção, naturalmente, no médio prazo, isso gera de novo uma falta de produto, e aí novamente o preço sobe, isso se chama ciclo de preços das commodities", esclarece o especialista.
O aumento do custo do crédito é outro fator crucial por trás do avanço do endividamento no agronegócio. Com a taxa básica de juros acima de 14% ao ano, financiar a produção tornou-se significativamente mais caro, limitando novos investimentos e pressionando o fluxo de caixa dos produtores. Nesse cenário desafiador, a inadimplência rural tem se concentrado principalmente em dívidas com instituições financeiras. De acordo com a Serasa Experian, a taxa chega a 7,3% nesse tipo de crédito, enquanto débitos dentro da própria cadeia do agro têm índices quase nulos.
O impacto dessa situação é claramente visível no aumento dos pedidos de Recuperação Judicial. Em 2025, produtores rurais pessoa física lideraram as solicitações, com 853 registros — alta de 50,7% em relação ao ano anterior. Já os produtores pessoa jurídica somaram 753 pedidos, com crescimento ainda mais expressivo, de 84,1%. O endividamento no campo não afeta apenas os produtores rurais, mas se espalha por toda a cadeia do agronegócio. Esse efeito dominó já é perceptível nos números da indústria. O setor de máquinas e equipamentos agrícolas faturou aproximadamente R$ 8 bilhões entre janeiro e fevereiro, uma queda de 17% em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Com acesso mais restrito ao crédito e maior cautela, os produtores tendem a priorizar o custeio da produção, como a compra de insumos, e adiar investimentos em tecnologia e maquinário. Para Cambraúva, o cenário atual reflete mais um ajuste dentro do próprio funcionamento do setor. "O agro tem uma dinâmica própria, muito ligada ao ciclo de preços. Momentos de pressão como esse acontecem, mas fazem parte do ajuste do mercado ao longo do tempo", afirma. Na prática, os produtores continuam no campo, mas adotam uma postura mais cautelosa, com menos investimentos e maior preocupação com a gestão financeira. Esta situação representa um desafio significativo para o setor, que precisa encontrar estratégias para superar este momento de crise e recuperar sua estabilidade financeira nos próximos anos.