
Gasolina | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O IPCA-15 de abril, divulgado nesta terça-feira (28) pelo IBGE, ficou abaixo das expectativas, mas reforçou as projeções de que a inflação em 2026 ficará acima do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas, cujo centro está fixado em 3% e o teto em 4,5%. O resultado acende um alerta sobre o ritmo dos cortes na taxa básica de juros ao longo do ano. O IPCA-15 avançou 0,89%, com alta acumulada de 4,37% nos últimos 12 meses. As previsões para a inflação cheia do mês apontam elevações em torno de 0,65%, mas, segundo estimativas de analistas, a inflação em 12 meses não deve sair da faixa do teto do intervalo de tolerância até o fim do ano, com tendência de encerrar o período próxima de 5%.
Mesmo diante desse cenário, as apostas para as decisões do Copom (Comitê de Política Monetária) sobre a taxa Selic ainda contemplam cortes ao longo das reuniões de 2026, porém em ritmo menor do que o anteriormente previsto. A maioria das projeções se concentra numa redução da atual Selic de 14,75% para 13%, que é a mediana das previsões para o fim do ano no Boletim Focus. Para atingir esse patamar, seriam necessários cinco cortes de 0,25 ponto percentual a partir da reunião de abril, com uma última redução de 0,5 ponto em dezembro, já após as eleições presidenciais de 2026.
A justificativa para os cortes, mesmo com inflação próxima ou acima do teto, está nas projeções de que os preços recuarão para perto do centro da meta no chamado "horizonte relevante", agora fixado no terceiro trimestre de 2027. Para que esse cenário se confirme, no entanto, seria necessário contar com alívios nos impactos da guerra sobre os preços e com estabilidade nas cotações do dólar. Ainda assim, considerando as projeções do Focus para os próximos anos, a taxa básica de juros real ficaria em 6% até 2029, um patamar elevado.
Em abril, os reflexos da guerra já aparecem com clareza no IPCA-15. O preço da gasolina subiu 6,2% e o diesel avançou 16%. O que impediu o índice de subir mais do que o projetado foram itens voláteis, como as passagens aéreas, que recuaram 14%. A queda nas passagens aéreas pode parecer surpreendente, mas o economista Fábio Romão, especialista em acompanhamento de preços da consultoria 4intelligence, explica que a metodologia do IBGE simula a compra de passagens com dois meses de antecedência.
Por isso, o impacto do reajuste recente no querosene de aviação ainda não está totalmente refletido no índice. "O importante reajuste anunciado pela Petrobras para o querosene de aviação em abril, em torno de 55%, pode aparecer mais claramente no IPCA a partir de junho e julho." — Fábio Romão, economista da consultoria 4intelligence Depois do grupo Transportes, os alimentos registraram o segundo maior impacto no IPCA-15 de abril.
Os preços do grupo avançaram 1,8%, após alta de 1,1% em março. A pressão sobre os alimentos deve se intensificar ao longo do ano, influenciada pelos custos de transporte e de fertilizantes afetados pela guerra, pelas variações do dólar e por condições climáticas desfavoráveis previstas para o segundo semestre. Nas projeções de Fábio Romão, os preços de alimentos no domicílio fecharão 2026 com alta de 5,5%. Antes da guerra, a estimativa era de elevação de 3,0%. Embora esse número ainda fique abaixo da média anual do período de 2011 a 2025, que chegou a 8%, trata-se de uma alta expressiva, acima da prevista para o conjunto do IPCA, com tendência de puxar a inflação para cima neste ano.
O cenário traçado pelo IPCA-15 de abril indica que a inflação seguirá pressionada ao longo de 2026, com os cortes na Selic ocorrendo em ritmo mais cauteloso do que o esperado anteriormente, à medida que o Copom monitora os desdobramentos dos preços e do cenário externo.