
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) registrou um crescimento de 0,6% nas vendas do varejo brasileiro em março de 2026, já descontada a inflação, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado foi influenciado pelo calendário, com o carnaval ocorrendo em fevereiro e a Páscoa no início de abril, impactando diretamente o desempenho do setor.
Apesar do crescimento em março, o primeiro trimestre apresentou retração real de 1,3% no volume de vendas. O comércio eletrônico destacou-se em março com alta nominal expressiva de 10,5%, superando significativamente o varejo físico, que cresceu apenas 1,5%.
Este desempenho do canal digital está fortemente associado às campanhas promocionais do mês do consumidor, tradicionalmente mais concentradas no ambiente online.
O resultado positivo de março foi influenciado principalmente pela base de comparação mais favorável. O deslocamento do carnaval beneficiou segmentos como autopeças e serviços automotivos, que costumam ter restrições operacionais durante o feriado, enquanto impactou negativamente setores tradicionalmente aquecidos pela data, como bares e restaurantes.
A antecipação da Páscoa, celebrada no início de abril, também contribuiu para o desempenho do varejo, concentrando parte das compras no fim de março. Entretanto, ao descontar o efeito calendário, o ICVA revela um recuo de 1,0% em março, indicando que os eventos sazonais foram responsáveis pelo resultado positivo.
O desempenho mais fraco sem os efeitos das datas comemorativas reforça a percepção de um consumidor ainda cauteloso, com a renda pressionada pela inflação e o endividamento recorde das famílias - que alcançou 80,4% em março, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Apesar disso, houve recuo na parcela de famílias que declaram não ter condições de quitar suas dívidas, sinalizando um esforço maior de organização financeira.
Em relação aos macrossetores, descontada a inflação:
* O setor de bens não duráveis foi o destaque em março, com crescimento de 3,2%, impulsionado principalmente pela proximidade da Páscoa. O varejo alimentício especializado apresentou bom desempenho, enquanto cosméticos e higiene pessoal recuaram.
* O macrossetor de Serviços registrou queda de 3,7%, impactado especialmente pelo segmento de Alimentação - Bares e Restaurantes, que sofreu com a mudança no calendário do carnaval.
* Bens duráveis e semiduráveis apresentaram recuo de 1,8%, com destaque positivo para móveis, eletrodomésticos e lojas de departamento, beneficiados pelas promoções do mês do consumidor.
Na análise regional, o Nordeste liderou o crescimento real com alta de 1,9% no ICVA deflacionado sem ajuste de calendário, seguido pelo Sul, que avançou 1,4%. As demais regiões registraram queda. Entre os estados, Sergipe apresentou o maior crescimento, com alta de 6,5%, seguido por Amapá (+5,0%) e Minas Gerais (+4,0%), indicando um dinamismo regional relevante mesmo em um cenário macroeconômico desafiador.
Por outro lado, alguns estados registraram retração significativa no período. O Pará apresentou a maior queda, com recuo de 3,4%, seguido por Goiás (-2,0%) e Roraima (-1,4%). O desempenho mais fraco nessas regiões pode refletir uma combinação de fatores, como maior sensibilidade à inflação e menor intensidade de estímulos ao consumo.
A Cielo ressalta ainda que a cautela do consumidor também pode explicar o crescimento das vendas em setores não essenciais como turismo e transportes, que registraram alta relevante no mês, especialmente companhias aéreas.
A elevação do preço do barril de petróleo, ao gerar incerteza sobre custos futuros, pode ter estimulado a antecipação na compra de passagens, em um contexto em que as passagens aéreas avançaram 5,94% no período.
Dinâmica semelhante foi observada nos postos de combustíveis, onde o consumo nominal cresceu, possivelmente refletindo a preocupação do consumidor com novas altas nos preços na bomba.
O ICVA de março revela um varejo brasileiro que, apesar dos desafios econômicos persistentes, conseguiu apresentar crescimento nominal, impulsionado principalmente por fatores sazonais e estratégias promocionais. No entanto, a retração observada quando descontados os efeitos de calendário indica que o consumidor brasileiro continua cauteloso, priorizando gastos essenciais e buscando oportunidades de valor em suas compras.