
Frank Martins: ''Vitória na estreia mostra que Cruzeiro não precisa sacrificar a Libertadores para se safar no Brasileirão, basta os caras querem jogar''
A Raposa volta para Belo Horizonte com mais do que uma vitória. Volta com moral. E o que o time precisa agora, acima de tudo, é manter a postura competitiva mostrada nesta estreia
Há noites em que o futebol não pede espetáculo. Pede personalidade. A estreia do Cruzeiro na Libertadores foi exatamente assim.
Longe de Belo Horizonte, no ambiente sempre hostil de Guayaquil, diante do Barcelona, a Raposa fez o que tantas equipes brasileiras historicamente têm dificuldade de fazer no Equador: venceu. E venceu do jeito que competição grande exige. Sem brilho em excesso, sem atuação exuberante, mas com maturidade, entrega e, acima de tudo, resultado.
O placar de 1 a 0, com gol de cabeça de Matheus Pereira, aos sete minutos do segundo tempo, vale mais do que apenas três pontos. Vale confiança. Vale casca. Vale a sensação de que o time entendeu o tamanho do torneio que voltou a disputar.
O lance do gol, aliás, resume bem a noite celeste: movimentação inteligente, infiltração no tempo certo e precisão. Matheus Pereira apareceu pisando na área como elemento surpresa, aproveitando o levantamento de Fagner para testar firme e decidir o jogo. Um gol de quem sabe ler o espaço e, sobretudo, de quem entendeu que Libertadores se ganha nos detalhes.
Não foi uma grande atuação? Não foi. Mas talvez isso seja justamente o melhor sinal.
Porque mesmo sem apresentar um futebol vistoso, o Cruzeiro sofreu pouco defensivamente e ainda criou chances suficientes para sair do Equador com um placar mais elástico. Kaio Jorge e Chico da Costa tiveram oportunidades claríssimas para ampliar chances que, em uma noite mais inspirada, transformariam a vitória magra em triunfo incontestável.
E aqui mora a boa notícia. Se jogando abaixo do ideal o time já consegue vencer fora de casa na Libertadores, há um caminho promissor pela frente.
A defesa, tão cobrada em momentos recentes, se comportou muito bem. Jonathan Jesus mostrou segurança, Fagner foi consistente atrás e ainda apareceu com protagonismo ofensivo na assistência. Lucas Silva, por sua vez, foi o motor silencioso do meio-campo, controlando ritmo, organizando a saída e dando equilíbrio nos momentos em que o jogo pedia serenidade.
Todas as mudanças iniciais de Artur Jorge funcionaram. Todas. E isso não é detalhe.
Em um torneio tão traiçoeiro quanto a Libertadores, leitura de jogo e escolhas certas do treinador fazem enorme diferença. O técnico português parece ter entendido rapidamente que, neste momento da temporada, o Cruzeiro não precisa se preocupar em encantar. Precisa vencer.
Vencer de qualquer jeito. Como disse Fagner, o mais importante agora é não tomar gols e somar pontos. É a lógica da competição.
O torcedor cruzeirense conhece bem esse roteiro. Libertadores não é concurso de beleza. É torneio de sobrevivência, de casca, de time que sabe jogar feio quando necessário.
A vitória em Guayaquil traz também um componente simbólico: quebra um padrão histórico de dificuldade dos clubes brasileiros atuando em território equatoriano. O cenário costuma ser ingrato, a pressão é grande, e sair de lá com três pontos é sempre um feito relevante.
O Cruzeiro volta para Belo Horizonte com mais do que uma vitória. Volta com moral. Volta com a sensação de que não há necessidade de “sacrificar” a Libertadores em nome de qualquer outra competição. O que o time precisa, acima de tudo, é manter a postura competitiva mostrada nesta estreia.
Porque, no fim das contas, futebol também é sobre isso. Nem toda noite é de espetáculo. Algumas são de suor, de sofrimento e de pontos de ouro. E essas, muitas vezes, são as noites que constroem campanhas grandes.