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Novas projeções climáticas revelam uma probabilidade crescente da formação de um super El Niño ainda este ano, um cenário que poderá levar o planeta a registrar temperaturas recordes até 2027. De acordo com dados do Centro Europeu de Previsão Meteorológica (ECMWF), o fenômeno pode atingir uma intensidade excepcional, com potencial para se tornar o mais forte em aproximadamente 140 anos.
O professor de ciências atmosféricas Paul Roundy, da Universidade Estadual de Nova York, em Albany, alertou em entrevista ao jornal The Washington Post sobre o risco real de um evento extremo entre o final de 2026 e o início de 2027. Segundo ele, o fenômeno pode alcançar níveis sem precedentes em mais de um século. ## O que caracteriza um super El Niño O El Niño é caracterizado pelo aquecimento de pelo menos 0,5ºC nas águas do Oceano Pacífico.
Já o chamado super El Niño ocorre quando esse aumento ultrapassa 2ºC, intensidade suficiente para alterar padrões climáticos em escala global, incluindo regimes de chuvas. As previsões indicam que o novo evento pode superar o recorde registrado em 2015, quando a temperatura do Pacífico ficou 2,8ºC acima da média.
Se o cenário se confirmar, os efeitos deverão ser sentidos em diversas regiões do planeta. Secas severas poderão afetar áreas da América Central, África Central, Austrália, Indonésia e Filipinas, comprometendo recursos hídricos e produções agrícolas locais. Chuvas intensas, com alto risco de enchentes, são esperadas em países como Peru e Equador, potencialmente causando desastres naturais e deslocamentos populacionais.
No Brasil, o fenômeno tradicionalmente provoca estiagem no Nordeste e aumento das precipitações no Sul, como ocorreu em 2024. "O El Niño aumenta as chances de enchentes no Sul do Brasil porque costuma provocar chuva acima da média na região", explicou a climatologista Karina Lima. "Mas os eventos de El Niño (e La Niña) nunca são iguais e, além disso, o desastre de 2024 teve causa multifatorial, com uma conjuntura climática bastante complexa."
As projeções também indicam maior frequência de ondas de calor em áreas da América do Sul, sul dos Estados Unidos, África, Europa, partes do Oriente Médio e Índia. Além disso, a atividade de ciclones e tufões no Pacífico pode aumentar, enquanto o Atlântico tende a registrar redução no número de furacões. ## Temperatura global e agricultura Um dos impactos mais significativos do El Niño é sobre a temperatura média global.
Eventos intensos liberam grande quantidade de calor do oceano para a atmosfera, favorecendo a elevação das temperaturas em escala planetária. Nesse contexto, 2027 aparece como um dos anos com maior potencial para registrar novos recordes de calor. As análises também apontam riscos para a agricultura, devido às mudanças no regime de chuvas. Na Índia, por exemplo, a possível redução das monções pode comprometer a produção agrícola. Em outras regiões tropicais, a combinação de calor extremo e seca pode agravar perdas no campo e pressionar o abastecimento de água.
Apesar do sinal de alerta, especialistas ressaltam que ainda há incerteza sobre a intensidade final do fenômeno. Eles destacam que não existem dois eventos de El Niño exatamente iguais, especialmente em um cenário de aquecimento global. Além disso, o aumento da concentração de gases de efeito estufa tem alterado o comportamento desses eventos climáticos. "Por conta da crescente concentração de gases estufa, o sistema climático não consegue dissipar todo o calor lançado por um evento de El Niño antes que outro El Niño ocorra, aumentando a temperatura de novo", explicou o meteorologista Eric Webb, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em entrevista ao The Washington Post.
O fenômeno El Niño, especialmente em sua versão "super", representa um desafio adicional para um planeta já afetado pelas mudanças climáticas, potencializando extremos de temperatura e precipitação que podem ter consequências severas para ecossistemas e populações humanas em todo o mundo.