
Polícia Federal (PF)
A Polícia Federal e a Anvisa realizaram nesta terça-feira (7/4) uma operação conjunta contra a produção e comercialização ilegal de canetas emagrecedoras no Brasil. A chamada Operação Heavy Pen teve como objetivo combater grupos envolvidos na cadeia ilícita desses produtos, desde a importação fraudulenta até a distribuição e venda irregular de substâncias de uso injetável, especialmente aquelas à base de semaglutida e tirzepatida, amplamente utilizadas em tratamentos para obesidade.
Agentes foram mobilizados para cumprir 45 mandados de busca e apreensão, além de 24 ações de fiscalização em onze estados brasileiros: Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Roraima, Rio Grande do Norte, São Paulo, Sergipe e Santa Catarina. A operação focou principalmente em produtos que contêm princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e substâncias correlatas como a retatrutida, esta última ainda sem autorização para comercialização no Brasil.
As autoridades concentraram seus esforços na fiscalização de diversos estabelecimentos suspeitos de operar à margem da regulação sanitária, incluindo:
* Laboratórios de manipulação que produziam medicamentos sem o devido registro ou com insumos de origem desconhecida
* Clínicas estéticas que aplicavam produtos sem garantia de qualidade ou procedência
* Empresas envolvidas no fracionamento ou comercialização irregular de medicamentos injetáveis
Segundo a PF, "Os elementos colhidos subsidiarão investigações em curso. As condutas investigadas podem caracterizar crimes relacionados à falsificação e comercialização irregular de medicamentos, além de contrabando".
A operação ocorreu um dia após a Anvisa anunciar novas medidas para garantir a segurança de pacientes que utilizam medicamentos injetáveis de GLP-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon-1), conhecidos como canetas emagrecedoras, que contêm princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida.
Entre as novas medidas anunciadas pela Anvisa estão a revisão das regras atuais do setor, a suspensão das autorizações de funcionamento para farmácias que apresentam situação de risco e novas fiscalizações em empresas importadoras de insumos para manipulação. A agência também informou que intensificará as ações junto às Vigilâncias Sanitárias estaduais e municipais, além de buscar acordos de cooperação com agências reguladoras de outros países.
Leandro Safatle, diretor-presidente da Anvisa, destacou durante entrevista coletiva: "A questão do controle de qualidade permeia toda a nossa fala, acho que esse é o foco mais importante que é trazer produtos seguros e com garantia de qualidade e eficácia para a população brasileira".
Um levantamento realizado pela Anvisa revelou dados alarmantes sobre a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação dessas canetas. Apenas no segundo semestre de 2025, foram importados mais de 100 kg de insumos, quantidade suficiente para a preparação de aproximadamente 20 milhões de doses, número considerado incompatível com o mercado nacional legítimo.
No ano corrente, a Anvisa já realizou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadoras, resultando em oito interdições por problemas técnicos e falta de controle de qualidade.
Entre os principais riscos mapeados pela agência estão:
* Produção sem previsão adequada de demanda por manipulação
* Problemas graves nos processos de esterilização
* Deficiências significativas no controle de qualidade
* Utilização de insumos farmacêuticos sem identificação de origem e composição
Desde janeiro deste ano, a Anvisa publicou 10 ações de proibição de importação, comércio e uso de produtos irregulares contendo medicamentos agonistas de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.
A agência enfatiza que, para a manipulação de produtos injetáveis como as canetas emagrecedoras, é fundamental a garantia de padrões rígidos de esterilidade e pureza do insumo para assegurar a segurança dos usuários.
Atualmente, há oito processos em análise para aprovação de novos medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic (semaglutida). Desses, sete são de origem sintética e um de origem biológica. Além disso, outros nove produtos aguardam o início da análise pelas áreas técnicas da Anvisa.
Vale ressaltar que, embora a patente da semaglutida no Brasil tenha expirado em 20 de março, qualquer medicamento que pretenda entrar no mercado nacional precisa obrigatoriamente comprovar eficácia, segurança e qualidade, requisitos que devem ser atestados pelo registro na Anvisa.