Liesse Costa: ”Por que focamos mais nos problemas do que nos resultados?”

Liesse Costa: ”Por que focamos mais nos problemas do que nos resultados?”

A tendência natural do cérebro humano de priorizar ameaças nos faz ignorar conquistas; treinar o olhar para os resultados é essencial para o equilíbrio

Vivemos em uma época marcada por conquistas extraordinárias. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantos avanços tecnológicos e tantas possibilidades de desenvolvimento pessoal e coletivo. Ainda assim, paradoxalmente, muitas pessoas continuam olhando para a vida com uma lente que privilegia os problemas em vez dos resultados alcançados. Se observarmos uma conversa comum entre colegas de trabalho, amigos ou familiares, veremos que os desafios, as falhas e as preocupações costumam ocupar mais espaço do que as conquistas. Um projeto bem executado pode passar despercebido, enquanto um pequeno erro se torna o centro das atenções. Mas por que isso acontece?

A psicologia tem uma resposta interessante para essa tendência. O psicólogo e pesquisador Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, explica que os seres humanos possuem o que ele chamou de viés da negatividade. Em seu livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, Kahneman afirma que “perdas têm um impacto psicológico maior do que ganhos equivalentes”. Em outras palavras, um problema de pequena proporção pode afetar nossa mente mais profundamente do que um grande resultado positivo.

Esse mecanismo tem raízes evolutivas. Durante milhares de anos, nossos antepassados precisaram desenvolver um olhar atento para ameaças e perigos. Quem percebia rapidamente um risco tinha mais chances de sobreviver. Assim, nosso cérebro foi naturalmente treinado para detectar aquilo que pode dar errado. O problema é que hoje vivemos em um contexto completamente diferente, mas ainda carregamos essa programação mental.

O psicólogo Rick Hanson, especialista em neurociência e autor de diversos estudos sobre felicidade, explica essa tendência de forma simples: “O cérebro humano é como velcro para experiências negativas e teflon para experiências positivas”. Ou seja, as dificuldades grudam facilmente em nossa memória, enquanto os bons resultados escorregam e desaparecem com rapidez.

Isso ajuda a entender por que muitas vezes terminamos o dia lembrando apenas do que não deu certo. Podemos ter resolvido dez problemas, alcançado metas importantes e ajudado várias pessoas, mas um único contratempo parece ocupar todo o espaço da nossa mente.

Raramente pensamos no que temos, mas sempre no que nos falta. Essa frase, antiga, continua extremamente atual. O olhar humano frequentemente se volta para a ausência, para a falha, para o que ainda não foi conquistado.

Entretanto, reconhecer essa tendência não significa aceitar que ela determine nossa forma de viver. É justamente aqui que entra o conceito de metanoia, palavra de origem grega que significa mudança de mente, transformação de pensamento.


Se nossa mente possui uma inclinação natural para focar nos problemas, também é verdade que podemos treiná-la para perceber os resultados.


O psicólogo Martin Seligman, considerado o pai da psicologia positiva, dedicou décadas de pesquisa para compreender como pessoas e organizações podem desenvolver uma visão mais construtiva da realidade. Segundo ele, “o otimismo não é negar os problemas, mas interpretar os acontecimentos de forma mais ampla e realista”.

Essa distinção é fundamental. Focar nos resultados não significa ignorar dificuldades ou fingir que tudo está bem. Significa reconhecer os desafios sem permitir que eles apaguem aquilo que está funcionando.
No ambiente profissional, por exemplo, líderes que reconhecem resultados positivos criam equipes mais engajadas e produtivas. Estudos mostram que o reconhecimento é um dos fatores mais importantes para a motivação no trabalho. Ainda assim, muitas organizações continuam dedicando mais tempo a apontar erros do que a celebrar conquistas. No campo pessoal, percebemos que muitas pessoas caminham pela vida com uma sensação constante de insuficiência, como se nada fosse suficiente. Metas alcançadas rapidamente se tornam pequenas, enquanto novos problemas ganham proporções gigantescas. Essa forma de olhar para a vida gera desgaste emocional, ansiedade e frustração permanente.

Afinal, quando os resultados nunca são reconhecidos, a sensação de progresso desaparece. Por isso, desenvolver uma nova perspectiva não é apenas uma questão de pensamento positivo; é uma questão de saúde mental e qualidade de vida. O filósofo romano Sêneca escreveu algo que ecoa até hoje: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas que perdemos muito dele”. Talvez possamos adaptar essa reflexão para nossa realidade atual: não é que tenhamos poucos resultados, mas que prestamos pouca atenção a eles.

Treinar a mente para reconhecer avanços, valorizar conquistas e perceber progresso é um exercício diário. Isso pode começar com algo simples: ao final do dia, perguntar a si mesmo não apenas “o que deu errado?”, mas também “o que funcionou bem hoje?”. Essa pequena mudança de perspectiva tem um poder transformador. Aos poucos, ela reequilibra o olhar da mente, permitindo que problemas sejam enfrentados com lucidez, sem que apaguem os resultados já conquistados.
Talvez a verdadeira metanoia, essa mudança profunda de pensamento, comece quando percebemos que a vida não é feita apenas de obstáculos a serem superados, mas também de avanços que merecem ser reconhecidos. E quando aprendemos a enxergar esses avanços, descobrimos algo importante: os resultados sempre estiveram ali. Apenas precisávamos olhar para eles.

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Foto: Reprodução
Liesse Costa
Liesse Costa é jornalista, pós-graduado em Gestão de Pessoas, Competência e Coaching. Atua como coordenador pedagógico na área de Tecnologias Integradas e também como evangelista e líder espiritual. Desenvolve trabalhos voltados ao crescimento pessoal, com foco na mudança de crenças limitantes, expansão da consciência, inteligência emocional, Mindset e estímulo à superação da zona de conforto. Sua trajetória combina comunicação, educação, fé e desenvolvimento humano, sempre com propósito e sensibilidade.

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Liesse Costa
Liesse Costa é jornalista, pós-graduado em Gestão de Pessoas, Competência e Coaching. Atua como coordenador pedagógico na área de Tecnologias Integradas e também como evangelista e líder espiritual. Desenvolve trabalhos voltados ao crescimento pessoal, com foco na mudança de crenças limitantes, expansão da consciência, inteligência emocional, Mindset e estímulo à superação da zona de conforto. Sua trajetória combina comunicação, educação, fé e desenvolvimento humano, sempre com propósito e sensibilidade.
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