Pressão por desempenho, perfeição e pertencimento intensifica o adoecimento emocional. Pausas e autoconexão surgem como caminhos para enfrentar esse cen...

Dorli Kamkhagi: “Aprendendo a se conectar com nossas emoções”
Pressão por desempenho, perfeição e pertencimento intensifica o adoecimento emocional. Pausas e autoconexão surgem como caminhos para enfrentar esse cenário
É cada vez mais comum a sensação de que não fizemos o suficiente. Existe uma convocação constante para sermos mais dinâmicos, estarmos sempre em mudança e em transformação, o que pode gerar adoecimento emocional e físico.
Como se não fosse permitido parar. Como se fosse necessário correr o tempo todo atrás de aperfeiçoamento em todas as áreas da vida, no trabalho, nas relações sociais e até na busca por uma beleza idealizada.
As pessoas passam a se sentir pressionadas a serem cada vez mais “perfeitas”, em uma busca constante por aprovação, como forma de pertencimento a determinados grupos. Esse movimento leva a uma procura incessante por algo que as complete, ao mesmo tempo em que surge a necessidade de serem vistas como mais produtivas e melhores.
Isso acaba gerando a sensação de estar sempre em falta, acompanhada pela percepção de não corresponder aos modelos impostos pela mídia e pela sociedade, que valorizam juventude, desempenho, estética e constante atualização.
Cria-se um ambiente quase tóxico, marcado por uma ideia de positividade extrema, onde não há espaço para a elaboração das experiências e dos sentimentos. O resultado é uma busca contínua por viver em estado de aceleração.
O que se observa é um processo de adoecimento, em que falta espaço psíquico para refletir sobre a própria existência, abrindo caminho para um vazio existencial.
Na clínica, tem sido frequente o atendimento de jovens que enfrentam dificuldades de autoaceitação. O bombardeio de imagens idealizadas confunde o que é real e o que é apenas construído para ser “instagramável”. Esse espaço passa a ser, ao mesmo tempo, objeto de desejo e fonte de sofrimento, ao projetar uma realidade onde todos parecem perfeitos e felizes.
Entre os mais jovens, há um risco evidente. Diversos fatores contribuem para o aumento da ansiedade e da angústia, reforçando a necessidade de aceitação e pertencimento a qualquer custo.
Esse movimento, guiado por tendências e padrões em constante mudança, atravessa diferentes idades e intensifica sentimentos de inadequação. O impacto aparece na qualidade de vida e no empobrecimento psíquico, emocional e físico. Em muitos casos, instala-se a sensação de que a vida perde o valor quando não corresponde a um modelo ideal.
O autor Byung-Chul Han, em sua obra Sociedade do Cansaço, chama atenção para o excesso de positividade presente na sociedade contemporânea, manifestado pelo excesso de estímulos e pela necessidade constante de conexão. Esse estado de hiperconectividade pode nos afastar de quem somos e do que realmente desejamos.
Ele propõe a importância de contemplar as experiências e entrar em contato com as próprias sensações. Para isso, é necessário tempo. Tempo que contrasta com a lógica imediatista, que nos empurra para a satisfação constante de necessidades e reduz o espaço para o desejo.
A ideia de pausa aparece como fundamental. Pausar para contemplar a vida e o próprio sentir pode ser um caminho para sair desse modo acelerado.
O trabalho terapêutico tem se mostrado uma possibilidade importante nesse processo. Ele permite que as pessoas se percebam sob uma nova perspectiva, ressignifiquem suas necessidades e compreendam melhor o que sentem. É um caminho para sair de um estado de aceleração que adoece e que impede uma compreensão mais profunda de quem somos.
