Dorli Kamkhagi: “A Necessidade de Vivermos com Alguns Limites”

Dorli Kamkhagi: “A Necessidade de Vivermos com Alguns Limites”

Entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade, os desafios de sustentar frustrações e construir crescimento psíquico na sociedade contemporânea

Nos últimos tempos, venho refletindo sobre duas questões:

1: As pessoas se sentem impulsionadas por uma necessidade de serem “sempre melhores” e de estarem constantemente em busca de algo que não nos permita sentir que há uma falta.
2: Vivemos evitando, de forma contínua, o Princípio da Realidade e partindo para uma busca frenética pelo Princípio do Prazer.

Explico melhor: vou tentar estabelecer uma ligação entre essas inquietações e observar como articulamos esses dois movimentos.

Segundo a Psicanálise, tendo Freud como seu fundador, são apresentados princípios fundamentais que regem nossas buscas humanas, ou seja, nossas pulsões e desejos.

O Princípio do Prazer refere-se à busca pela satisfação imediata, à necessidade de atender desejos e afastar tudo aquilo que nos cause desconforto. Pode se manifestar na busca por satisfação sexual, comida, jogos ou sono. Enfim, qualquer forma de aliviar angústias. Trata-se de um desejo por satisfação constante, que precisa ser repetidamente saciado.

Já o Princípio da Realidade está ligado às questões concretas da vida, aos limites, às dores e às frustrações.

Segundo Freud, o ser humano necessita que esses dois princípios coexistam para que haja equilíbrio e desenvolvimento do indivíduo.

No entanto, o que temos presenciado na atual pós-contemporaneidade é uma necessidade constante de preencher todos os espaços e todos os momentos. É como se não pudéssemos mais desejar e esperar, ou permanecer em um tempo de sonho e elaboração.

Nada pode ser aguardado.
Não podemos suportar ou tolerar frustrações.

As pessoas passam a viver sob um modo de obter tudo, a qualquer preço e de qualquer maneira. Observa-se um consumismo exacerbado, como se não houvesse espaço para a falta. É preciso ser igual a todos. Não podemos sustentar nossa própria identidade.

Entre os jovens, muitas vezes percebe-se a ausência de planos futuros, pois só existe o discurso do agora. A ordem é não viver frustração, não sentir dor. Dessa forma, não há crescimento psíquico nem emocional.

As compulsões por preencher e tamponar buracos existenciais são rapidamente substituídas por férias, presentes ou procedimentos estéticos. Não podemos sentir incômodos.

A cada dia, o consumo midiático nos invade de tal forma que somos colonizados por padrões impostos pelas mídias, padrões de viver e até de morrer.

Essa sociedade, que exige que o Princípio do Prazer impere de forma soberana e implacável, conduz a desajustes cada vez mais intensos, sejam eles psíquicos, emocionais ou sociais.

Reconhecer que somos sujeitos capazes de viver com certas dores e dificuldades pode ser um caminho para que limites, tão importantes e estruturantes, nos auxiliem na busca por um crescimento verdadeiro.

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Dorli Kamkhagi
Psicóloga e Psicoterapeuta de adultos, casais e famílias, mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, é colaboradora e supervisora de Grupos de Maturidade e Projetos sobre o Envelhecimento do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

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Dorli Kamkhagi
Psicóloga e Psicoterapeuta de adultos, casais e famílias, mestre em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, é colaboradora e supervisora de Grupos de Maturidade e Projetos sobre o Envelhecimento do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
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