Entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade, os desafios de sustentar frustrações e construir crescimento psíquico na sociedade contemporânea
Nos últimos tempos, venho refletindo sobre duas questões:
1: As pessoas se sentem impulsionadas por uma necessidade de serem “sempre melhores” e de estarem constantemente em busca de algo que não nos permita sentir que há uma falta.
2: Vivemos evitando, de forma contínua, o Princípio da Realidade e partindo para uma busca frenética pelo Princípio do Prazer.
Explico melhor: vou tentar estabelecer uma ligação entre essas inquietações e observar como articulamos esses dois movimentos.
Segundo a Psicanálise, tendo Freud como seu fundador, são apresentados princípios fundamentais que regem nossas buscas humanas, ou seja, nossas pulsões e desejos.
O Princípio do Prazer refere-se à busca pela satisfação imediata, à necessidade de atender desejos e afastar tudo aquilo que nos cause desconforto. Pode se manifestar na busca por satisfação sexual, comida, jogos ou sono. Enfim, qualquer forma de aliviar angústias. Trata-se de um desejo por satisfação constante, que precisa ser repetidamente saciado.
Já o Princípio da Realidade está ligado às questões concretas da vida, aos limites, às dores e às frustrações.
Segundo Freud, o ser humano necessita que esses dois princípios coexistam para que haja equilíbrio e desenvolvimento do indivíduo.
No entanto, o que temos presenciado na atual pós-contemporaneidade é uma necessidade constante de preencher todos os espaços e todos os momentos. É como se não pudéssemos mais desejar e esperar, ou permanecer em um tempo de sonho e elaboração.
Nada pode ser aguardado.
Não podemos suportar ou tolerar frustrações.
As pessoas passam a viver sob um modo de obter tudo, a qualquer preço e de qualquer maneira. Observa-se um consumismo exacerbado, como se não houvesse espaço para a falta. É preciso ser igual a todos. Não podemos sustentar nossa própria identidade.
Entre os jovens, muitas vezes percebe-se a ausência de planos futuros, pois só existe o discurso do agora. A ordem é não viver frustração, não sentir dor. Dessa forma, não há crescimento psíquico nem emocional.
As compulsões por preencher e tamponar buracos existenciais são rapidamente substituídas por férias, presentes ou procedimentos estéticos. Não podemos sentir incômodos.
A cada dia, o consumo midiático nos invade de tal forma que somos colonizados por padrões impostos pelas mídias, padrões de viver e até de morrer.
Essa sociedade, que exige que o Princípio do Prazer impere de forma soberana e implacável, conduz a desajustes cada vez mais intensos, sejam eles psíquicos, emocionais ou sociais.
Reconhecer que somos sujeitos capazes de viver com certas dores e dificuldades pode ser um caminho para que limites, tão importantes e estruturantes, nos auxiliem na busca por um crescimento verdadeiro.