Said Santana: ”O jogo do poder e do dinheiro”

Said Santana: ”O jogo do poder e do dinheiro”

Entenda como as escolhas políticas de 2026 vão definir os rumos da economia, afetar seu bolso e determinar o futuro do país

Economia política é como um grande jogo de regras no qual as pessoas decidem como o dinheiro do país será usado. Imagine que o Brasil é uma família enorme. Todo mês entra dinheiro (os impostos) e alguém precisa decidir como gastar: escola, hospital, estrada, ajuda para quem precisa. A economia olha para as contas e pergunta: “há dinheiro suficiente?”; a política decide “quem recebe primeiro?” e “quem paga a conta?”. Quando juntamos as duas coisas, entendemos que decisões sobre dinheiro nunca são apenas números, são escolhas feitas por pessoas, com interesses, promessas e consequências. Isso é economia política: compreender como o poder influencia o uso do dinheiro e como essas decisões afetam a vida de todos.

Quando chega a época de eleição, esse jogo fica ainda mais intenso. Quem quer ser escolhido promete usar o dinheiro do país de uma forma que agrade o maior número possível de pessoas. Alguns defendem mais benefícios sociais, outros menos impostos, outros prometem organizar melhor as contas públicas. Mas, como em qualquer família, não é possível gastar com tudo ao mesmo tempo nem satisfazer todos os interesses. Nas eleições, não estão em disputa apenas nomes ou partidos, mas diferentes formas de dividir recursos, estabelecer prioridades e definir quem será atendido primeiro.

Se a família faz escolhas erradas, o problema não aparece apenas no papel, ele surge na vida real. Quando o governo gasta sem planejamento ou promete o que não consegue financiar, os preços podem subir (inflação), o crédito pode ficar mais caro (juros altos) e as empresas podem investir menos, reduzindo o crescimento econômico. A casa fica mais cara para viver e mais difícil para prosperar. Por isso, aprender a separar promessas atraentes de propostas viáveis não é um exercício intelectual sofisticado, é uma forma de proteger o próprio patrimônio, o emprego, os negócios e o futuro coletivo.

Há um padrão conhecido nas democracias: quanto mais perto da eleição, maior a tendência de surgirem políticas expansionistas e simbólicas. O benefício costuma ser imediato; o custo, muitas vezes, fica para depois. No Brasil, esse movimento se repete com frequência: linhas de crédito facilitadas, desonerações pontuais, programas criados às pressas e promessas de “soluções definitivas” para problemas complexos. O retorno político é rápido; a conta costuma ser transferida para o ano seguinte ou para o próximo governo.

Cada grupo sente a economia de forma diferente, mas todos estão conectados pelas mesmas decisões políticas. O eleitor percebe quando o preço dos alimentos e dos combustíveis sobe. O empresário sente o impacto dos juros elevados sobre o investimento. O investidor observa o aumento do risco e exige maior retorno para aplicar recursos no país. E o próprio Estado enfrenta o limite do caixa quando a dívida cresce. Essas experiências não são isoladas: são consequências diretas das escolhas feitas anteriormente.

O cenário de 2026 não envolve apenas a eleição presidencial, mas também a renovação do Senado, que pode alterar significativamente o equilíbrio de forças em Brasília. Das 81 cadeiras, 54 estarão em disputa. Dos 27 senadores que permanecerão no cargo, 17 são identificados com a direita e 7 com a esquerda, o que significa que a direita inicia o ciclo eleitoral com vantagem de 10 cadeiras. Isso não é mero detalhe estatístico — é um fator relevante de governabilidade. Reformas econômicas, mudanças fiscais, indicações a tribunais superiores e até processos de impeachment passam necessariamente pelo Senado. Em economia política, a correlação de forças importa — e os números já indicam um ponto de partida relevante para o próximo governo.

Pesquisas estaduais iniciais sugerem que, das 54 cadeiras em disputa, a direita pode conquistar entre 27 e 34. Caso essa projeção se confirme, o bloco poderá alcançar algo entre 44 e 51 senadores. Isso ampliaria sua capacidade de influenciar a agenda legislativa, acelerar ou bloquear reformas e moldar o ambiente institucional a partir de 2027. O Senado não é apenas uma casa revisora; é um centro estratégico de poder. Uma mudança expressiva na sua composição altera incentivos, negociações e limites de qualquer governo eleito.

O mercado financeiro parece já estar atento a esse possível redesenho institucional. O capital — especialmente o internacional — tende a reagir menos a discursos e mais a probabilidades. Nas primeiras semanas de 2026, o Ibovespa acumulou forte valorização, refletindo a percepção de que determinados arranjos políticos podem favorecer maior previsibilidade regulatória e disciplina fiscal. O mercado não vota, mas antecipa cenários. Quando enxerga maior probabilidade de estabilidade institucional e reformas estruturais, isso costuma se refletir rapidamente nos preços dos ativos.

No fim, economia política não é teoria distante nem debate abstrato. É o elo entre voto, poder e bolso. As escolhas feitas em 2026 definirão não apenas quem ocupará o Palácio do Planalto, mas qual será o ambiente econômico a partir de 2027: mais previsível ou mais incerto, mais favorável ao investimento ou mais pressionado por desequilíbrios. Senado, coalizões, promessas de campanha e reação do mercado fazem parte do mesmo sistema. Entender isso permite ao cidadão ir além da retórica, avaliar incentivos e perceber que estabilidade, crescimento e proteção patrimonial dependem menos de discursos e mais de instituições sólidas e decisões fiscalmente responsáveis. Em uma democracia, o voto é político, mas suas consequências são econômicas.

Mais textos do colunista

Foto de perfil Said Santana
Said Santana
Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.

RELACIONADAS

Foto de perfil Said Santana
Said Santana
Said Aad Aziz Alexandre Santana é economista Ph.D. Com 22 anos de experiência no mercado financeiro, é fundador e CEO do Grupo Rentabilidade Pérola Holding.
Economia e Negócios