A quebra do Banco Master escancara um patrimonialismo que corrói instituições, enquanto o sistema financeiro prova sua solidez ao isolar a crise sem con...

Leonardo Luz: “Precisamos falar sobre a crise do Master”
A quebra do Banco Master escancara um patrimonialismo que corrói instituições, enquanto o sistema financeiro prova sua solidez ao isolar a crise sem contágio sistêmico
A bancarrota do Banco Master deixou de ser apenas um episódio restrito às páginas de economia e negócios e passou a ocupar, nos últimos meses, o noticiário político — e, em certa medida, policial. A escalada do caso expôs uma teia de relações que alcança figuras relevantes dos três Poderes da República, hoje sob investigação, e envolve desde suspeitas de favorecimentos financeiros e tráfico de influência até episódios de natureza privada que, embora periféricos ao problema econômico, aprofundaram a erosão da confiança institucional.
O prejuízo financeiro direto é elevado, mas não esgota a dimensão do dano. Estima-se que o Fundo Garantidor de Créditos desembolsará cerca de R$ 58 bilhões para cobrir garantias e reembolsos decorrentes da liquidação do Banco Master, do Will Bank e do Banco Pleno, ligado a ex-sócios do grupo. Trata-se de uma cifra significativa, que exigirá recomposição gradual do fundo pelas próprias instituições financeiras associadas. Ainda assim, o impacto mais profundo não é contábil, mas institucional. O episódio atingiu o tecido da República ao revelar como relações patrimonialistas seguem capazes de atravessar, tensionar e até contaminar instâncias decisórias que deveriam operar sob estrita impessoalidade.
Em meio à indignação pública e à corrosão institucional decorrente do escândalo, um aspecto essencial não pode passar despercebido: a resiliência do sistema financeiro nacional. Muito longe de passar por qualquer ameaça de colapso sistêmico, nosso sistema financeiro demonstrou, mais uma vez, capacidade de isolar um problema bancário relevante sem contágio generalizado. Diferentemente de crises que exigiram intervenções públicas maciças em outras economias — como a crise financeira de 2008 nos Estados Unidos ou implosões bancárias recentes em países como Argentina e Turquia —, o país, dispondo de uma institucionalidade clara de proteção e resolução de crises financeiras, foi capaz de absorver o choque sem comprometer a estabilidade do sistema como um todo.
Essa resiliência não é casual. A arquitetura institucional do sistema financeiro brasileiro, construída ao longo de décadas, figura entre as mais robustas do mundo. É, sem exagero, a mais sólida entre as economias emergentes e, em diversos aspectos, superior à de muitos países desenvolvidos. Seus reguladores vêm aperfeiçoando continuamente mecanismos de supervisão, compliance e mitigação de riscos, reforçando amortecedores contra falhas técnicas, erros de gestão ou mesmo má-fé deliberada de agentes específicos.
Tomemos por exemplos o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O primeiro desenvolveu um sistema de supervisão prudencial avançado, com monitoramento contínuo de liquidez, capital e governança, além de instrumentos modernos de intervenção e liquidação extrajudicial. Esses mecanismos permitem proteger depositantes, mitigar perdas sistêmicas e assegurar a continuidade de funções essenciais — tudo isso sem recorrer a socorro fiscal direto. O modelo é transparente, previsível e reconhecido internacionalmente por sua eficácia. A CVM, por sua vez, exerce fiscalização permanente sobre o mercado de capitais, baseada em normas claras de transparência, equidade e proteção ao investidor, operando de forma autônoma e sem uma única mácula em suas décadas de história.
Para além dos organismos públicos de regulação, os agentes privados participantes do sistema também se destacam pela qualidade e transparência em suas práticas. Os próprios bancos, em sua ampla maioria, operam com elevados níveis de capitalização e estruturas sofisticadas de gestão de riscos, fruto de uma simbiose entre regulação eficaz e autoconteção (leia-se, responsabilidade) que não apenas acompanha, mas frequentemente supera, os padrões verificados mundo afora.
Esse arranjo é sustentado por um capital humano de altíssima qualidade. As instituições do sistema financeiro nacional — públicas e privadas — formam um verdadeiro polo de excelência técnica, capaz não apenas de reter profissionais altamente qualificados, mas também de exportar quadros e práticas regulatórias para outros países. Trata-se de uma vantagem comparativa rara entre economias emergentes, onde a politização de cargos técnicos e a fragilidade institucional ainda são obstáculos recorrentes.
A crise do Banco Master, portanto, constata que nosso sistema financeiro é saudável. O verdadeiro problema está fora dele. O episódio expõe a persistência de um patrimonialismo sistêmico (e histórico), que mistura interesses privados e públicos de forma indevida e enfraquece as fronteiras entre Estado, mercado e poder político. Esse padrão cria incentivos para a captura de instituições, para a exploração de brechas regulatórias e para a judicialização estratégica de decisões que deveriam permanecer no campo técnico.
Quando conflitos essencialmente privados são deslocados para a arena política, para o Judiciário ou para órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União, a fim de criar zonas de ambiguidade ou buscar proteção específica para “amigos dos reis” (sim, no plural), instala-se um ambiente de incerteza jurídica e institucional. Isso não invalida a competência dessas instâncias; ao contrário, evidencia a necessidade de blindar decisões técnicas contra pressões externas que desviem o foco da estabilidade financeira e do interesse público.
Não é coincidência que parte relevante da crise tenha se desenvolvido justamente nas zonas de atrito entre regulação financeira, judicialização e controles externos. No que diz respeito exclusivamente ao sistema financeiro, o problema foi identificado, diagnosticado e tratado com os instrumentos adequados. A fragilidade não estava na engrenagem técnica, mas na contaminação patrimonialista de instituições que deveriam permanecer claramente separadas — fragilidade esta concentrada, como tantas outras no Brasil, no núcleo político-institucional de Brasília.
Os reguladores fizeram o que se espera de um sistema maduro: atuaram com base em critérios técnicos, isolaram a instituição problemática, acionaram mecanismos de liquidação e protegeram os depositantes. Os bancos associados ao FGC arcarão com a recomposição do fundo, respeitando regras previamente estabelecidas. Essa disciplina institucional reduziu drasticamente o risco de contágio — algo que poucos países emergentes conseguem realizar com tanto sucesso.
O verdadeiro gargalo está no ambiente institucional mais amplo, que ainda permite que interesses paralelos tentem se sobrepor às regras fundamentais do Estado de Direito. É essa fronteira que precisa ser fortalecida. Não porque o sistema financeiro seja frágil — ele demonstrou o oposto —, mas porque setores alheios à lógica econômica insistem em tentar colonizá-lo para fins que não convergem com a estabilidade sistêmica.
Se o Brasil deseja consolidar suas instituições e reduzir o risco de crises semelhantes no futuro, precisa compreender que o desafio não é reformar o sistema financeiro, mas transformar o Estado patrimonialista em um Estado verdadeiramente impessoal, com fronteiras nítidas entre poder, mercado e justiça. Essa é a reforma que segue pendente — e que crises como a do Banco Master apenas tornam mais evidente.
