Frank Martins: “A culpa da situação do Cruzeiro é do Tite, da diretoria, dos jogadores e até do Leonardo Jardim”

Frank Martins: “A culpa da situação do Cruzeiro é do Tite, da diretoria, dos jogadores e até do Leonardo Jardim”

Quando todo mundo erra um pouco, o resultado é esse futebol pobre que machuca quem ama o Cruzeiro

Em futebol, raramente a culpa mora em uma única casa. No Cruzeiro de hoje, ela circula livremente entre jogadores, diretoria, treinador atual e até por decisões do passado recente. E o que vemos em campo não é apenas um mau momento. É um retrato de erros acumulados, escolhas mal feitas e uma perigosa ilusão coletiva.

Vamos começar por quem entra em campo. Os principais culpados não são os únicos, mas são os mais evidentes: os jogadores. É praticamente o mesmo elenco do ano passado. Eles se conhecem, são entrosados, sabem como o clube funciona, conhecem o ambiente, o peso da camisa e a cobrança da torcida. Não havia curva de adaptação. O que mudou, então? As generosas renovações salariais. E, curiosamente, o rendimento despencou.

Logo atrás vêm as responsabilidades da diretoria, que mimou demais e cobrou de menos. Faltou pulso. Faltou leitura. Faltou coragem para admitir carências claras do elenco. Apostou-se grande parte do orçamento em um único jogador e negligenciou posições fundamentais. O resultado é um grupo curto, previsível e sem soluções no banco.

Tite chegou agora, é verdade. Não teve tempo de trabalho, não montou o elenco e herdou um cenário ruim. Ainda assim, sua permanência, do jeito que está, soa como uma teimosia perigosa. A saída dele é, gostemos ou não, o problema mais rápido de resolver. E talvez o único que possa gerar impacto imediato, ainda que paliativo.

Mas é preciso dizer algo que muita gente finge esquecer: o Cruzeiro já vinha em declínio no fim de 2025. Basta lembrar das atuações contra Vasco, Sport, Juventude, Ceará. O time teve chances de subir mais na tabela do Brasileiro e de avançar com mais autoridade na Copa do Brasil, mas não conseguiu. Havia ali sinais claros de acomodação, de meta atingida, de um comandante que já não queria seguir. O mental, que nunca foi forte, começou a ruir.

Em 2026, esse declínio virou queda livre. O que era tropeço virou vexame. O que era alerta virou crise. Tite não trouxe nada de positivo até aqui, e os jogadores parecem ter esquecido tudo o que fizeram de bom no ano passado. O time toma gols como nunca tomou. Justamente com um técnico conhecido por montar defesas sólidas. Ironia das grandes.

O torcedor, mais uma vez, direciona toda a ira ao treinador e esquece o essencial: elenco se reforça, não se idealiza. Nem todo dia aparece um Leonardo Jardim para fazer um trabalho fora da curva. Aquele Cruzeiro só funcionou porque houve um desempenho acima da média. Esse elenco, no mundo real, é supervalorizado. Nunca conquistou nada para carregar o status de grande elenco. Nunca entregou regularidade suficiente para isso.

E ainda assim, a diretoria caiu no conto de que tinha um elenco top 3 do Brasil. Enxugou o grupo tendo uma competição a mais, a Libertadores, em um calendário mais pesado. Erro gigantesco de avaliação. Um elenco que já era curto em 2025 segue curto em 2026.

Ontem, por exemplo, o Cruzeiro tinha três atacantes no banco: Wanderson, Kenji e Néiser. Dois sequer entraram. Isso diz muito. O banco é fraco. E sem banco, não se disputa Brasileiro, Libertadores e Copa do Brasil. Não com João Marcelo, Christian improvisado na ponta esquerda e Wanderson sendo solução para tudo.

A diretoria precisava já ter vindo a público e dito o óbvio: erramos a avaliação, estamos no mercado, precisamos de peças para suportar o calendário. Simples assim. Transparência também é gestão.

E ainda querem exigir calma do torcedor. Pedem ponderação, manual de comportamento, exigem silêncio em nome de um suposto amor racional. Isso é injusto e até cínico. Não existe requisito para cobrar quem manda no clube. Basta amar o Cruzeiro. Só quem ama sofre vendo todo o trabalho do ano passado escorrer pelo ralo.

Sim, o Jardim também entra nessa conta. Se o Cruzeiro está com Tite hoje, é porque o contrato anterior não foi cumprido. O fim daquela relação, somado à acomodação do elenco, deixou um vácuo que ninguém soube preencher.

A pergunta que fica é dura: qual técnico conseguiria resolver tudo isso? Quem chegaria cobrando reforços, recuperando mentalmente um elenco fragilizado, mudando postura e ainda entregando resultado imediato?

Por isso, o problema é maior do que Tite. Mas isso não o isenta. Seu trabalho é preocupante, abatido, sem sinais de reação. Pela primeira vez, um time dele não consegue se defender. Mas o erro original foi achar que esse grupo bastava para três competições.

O Cruzeiro não está em crise por acaso. Está em crise porque errou em sequência. E enquanto não admitir isso, seguirá tropeçando, redimensionando expectativas e pedindo paciência a quem já cansou de esperar.

O Cruzeiro precisa acordar. E acordar dói. Mas é a única forma de não repetir os mesmos erros que já custaram caro demais.

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Frank Martins
Frank Martins
Jornalista, cruzeirense e contador de histórias do time que fez do Mineirão o palco da eternidade. Já passei pela Itatiaia, O Tempo, Hoje em Dia, TV Rede Super e ESPN FC, mas aqui no N3 News a proposta é outra: menos noticiário, mais alma. Reflexões, memórias, causos e análises do clube que carrego 5 estrelas no peito e que me ensinou a amar o futebol. Porque ser Cruzeiro é mais do que torcer: é transformar cada jogo em memória e cada título em parte da alma dessas páginas heroicas e imortais.

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