A força dos segredos e legados familiares que, não ressignificados, podem nos aprisionar em repetições. A cura está em escolher ser leal a si mesmo
O tema das lealdades é algo muito forte, inscrito na história emocional, social e intergeracional.
Desde o nascimento, somos atravessados pela cultura familiar, na qual diversas histórias e segredos já faziam parte de sua trama — uma história que carrega marcas de gerações passadas. Algumas famílias guardam segredos de traições, mortes, fugas, filhos que foram bastardos, mudanças de religião ou da expulsão de membros considerados desleais.
Certas marcas nem mesmo revelam a verdade sobre nossa origem. Isso nos faz carregar dúvidas e angústias num silêncio sobre algo nunca dito, que acaba se transformando numa espécie de maldição.
Algumas histórias nos marcam profundamente e quase nos tornam reféns desse legado deixado por nossos antepassados. Muitas vezes, nem sequer compreendemos o que realmente aconteceu na vida desses personagens que supostamente deveríamos honrar. É como se esse legado também fosse uma sentença, um lugar que não nos permite escolha.
O que acontece, então, quando somos reféns de algo que não nos pertence, mas que foi vivido por nossos pais? E quando nos sentimos traidores por não seguirmos o que, para eles, era uma lei?
Essa ordem transmitida torna-se uma lei. Algo que, se não for seguido, é entendido como traição e como a ruptura de um código familiar. Do ponto de vista da psicanálise, sabemos o quanto as famílias preservam memórias passadas não resolvidas, e que os filhos não precisam ser os perpetuadores dessa ordem.
Como psicanalista, percebo na minha clínica o quão doloroso, e muitas vezes adoecido, se torna esse processo quando não conseguimos ressignificar nossos legados. É fundamental compreender o que escolher e o que deixar para trás, criando assim um novo campo e tornando-nos autores de nossas experiências únicas.
Dessa forma, poderemos ser leais, em primeiro lugar, a nós mesmos. A lealdade é também a possibilidade de olhar para nossa essência e seguir adiante sem trair nossa própria alma.