Conheci a Letícia Novaes quando ela tinha apenas 16 anos. Trabalhamos juntas naquela época e, como a vida costuma fazer, seguimos caminhos diferentes. Anos depois, já em outro momento da minha carreira quando passei a ajudar profissionais a estruturarem suas marcas com estratégia, verdade e consistência fui procurada por ela.
Esse reencontro aconteceu há cerca de seis anos. E foi um grandioso presente.
Foi bonito ver uma mulher formada, experiente, profundamente técnica, mas ainda em busca de organização interna, clareza e permissão para ocupar o lugar que sempre foi seu. Mais bonito ainda foi ver a confiança que ela depositou em mim para ajudá-la a dar nome, forma e direção a tudo o que já existia dentro dela.
Durante essa entrevista, confesso: fui surpreendida. Pela profundidade, pela consciência e pela maturidade de quem entendeu que cuidar do outro começa, inevitavelmente, pelo próprio corpo, pela própria energia e pelo próprio tempo.
A seguir, a história de Letícia Novaes, fisioterapeuta, criadora da PAUSA Terapia e uma profissional que transformou o descanso em método.
Minha trajetória na fisioterapia começou por amor. Eu me apaixonei pela profissão logo na primeira aula de anatomia. Quando me formei, em 2005, já atuava em clínicas, academias e salões de beleza, sempre buscando aprender mais. Aproveitava cada período de férias para estagiar em diferentes cidades e, ao longo dos anos, somei nove especializações.
Atendendo pacientes com dores crônicas, bruxismo e tensões na face, cabeça e pescoço, comecei a perceber que muitas queixas iam além do físico. Surgiam dúvidas sobre sexualidade, incontinência urinária, desconfortos íntimos, prazer e autoestima — temas ainda cercados de silêncio, vergonha e desinformação.
Essas queixas vinham acompanhadas de ansiedade, cansaço extremo e dificuldade de relaxar. Ficou claro para mim que a técnica, sozinha, não era suficiente. O corpo precisava de escuta, segurança e pausa.
Esse olhar me levou a criar projetos voltados à saúde da mulher e, mais tarde, a formar equipes multidisciplinares. Em 2025 nasceu a PAUSA Terapia, um tratamento integrativo que une massagem terapêutica, relaxamento profundo, alinhamento postural, acupuntura, aromaterapia e energização, além de um braço dedicado à fisioterapia pélvica, com atendimentos em clínica, home care e online.
A PAUSA se baseia no método RARA — Respira, Alinha, Relaxa e Alonga. Mais do que aliviar dores, o objetivo é devolver presença, consciência corporal, autonomia íntima e qualidade de vida. Em um mundo acelerado, cuidar da saúde também é aprender a parar.
Cuidado, respeito, escuta e toque terapêutico. Esses valores não estão só no discurso, eles estão na forma como eu atendo, me posiciono e escolho estar presente para cada pessoa que chega até mim.
Organizar meus pensamentos e confiar em mim.
Foi compreender a importância de valorizar minha bagagem, tudo o que estudei e vivi. Acreditar e confiar na minha potência.
Reconhecer meu lugar profissional levou tempo, mas foi essencial. Hoje entendo que respeitar meu tempo, meu conhecimento e minha energia me permite cuidar melhor do outro sem adoecer. Na saúde, carreira e autocuidado caminham juntos.
Hoje, as ferramentas mais importantes da minha marca estão ligadas à valorização da carreira e à saúde de quem cuida e de quem recebe o cuidado.
A mentoria me ensinou que a pausa é uma troca séria de tempo, energia e entrega. Organizar a logística, reduzir o desgaste físico com equipamentos adequados, respeitar a pontualidade e manter serenidade fazem parte do que eu chamo de “atendimento de anjo”.
Ser a pausa de alguém é algo muito sério e precioso. Cuidar do terapeuta é o primeiro passo para que ele possa cuidar do outro com presença, confiança e humanidade. No fim, é sempre gente cuidando de gente.
Aprender a cuidar da minha própria energia. Durante muitos anos, eu doava demais. Saía dos atendimentos carregando dores que não eram minhas. Enquanto pacientes melhoravam, eu adoecia: mancando, com enxaquecas intensas, exausta, recorrendo a medicamentos e, às vezes, precisando cancelar a agenda por não conseguir sair da cama.
Também precisei lidar com tendinites e dores no corpo por não priorizar meu próprio cuidado. Aprendi da forma mais dura que, na saúde, quem cuida também precisa ser cuidado.
Outro desafio marcante foi uma experiência emocionalmente muito difícil com uma paciente, marcada por uma acusação injusta. Aquilo me trouxe um profundo sentimento de humilhação e insegurança, mas também um aprendizado essencial: limites são proteção.
Hoje escolho com quem caminho profissionalmente. Técnica é fundamental, mas ambiente seguro, confiança e energia limpa também curam.
Isso acontece todos os dias. Muitas pacientes choram, desabafam e se sentem verdadeiramente acolhidas durante as sessões. O toque consciente e a escuta sensível acalmam e ajudam a enxergar a própria vida por outro ângulo.
Um caso que me marcou foi o de uma paciente com incontinência urinária, dores nas costas, pernas inchadas, ansiedade e autoestima muito baixa. Em poucas sessões, a dor foi aliviada e o contato com a própria intimidade se transformou em um ritual de autocuidado.
É isso que a PAUSA representa: parar, se escutar, recalibrar e seguir com mais presença.
Nos próximos 12 meses, meu foco é consolidar a PAUSA em São Paulo, fortalecer a equipe e os atendimentos presenciais, além de promover encontros trimestrais de alinhamento e excelência. Também está previsto o lançamento de um curso digital para formar terapeutas alinhados à mesma ética e sensibilidade.
Em até 24 meses, o projeto avança para uma estrutura digital mais ampla, com site e aplicativo próprios, conectando terapeutas e pessoas que buscam um cuidado verdadeiro. Uma rede silenciosa, humana e precisa.
E daqui a cinco anos, como você imagina o impacto da PAUSA?
Vejo a PAUSA como um hábito semanal de autocuidado, incorporado à rotina das pessoas e também à cultura das empresas. Um novo modelo de cuidado, mais preventivo, contínuo e humano, quase como um plano de saúde focado em bem-estar, e não apenas em emergência.
Busque um profissional que saiba ouvir o seu projeto e lapidar o seu sonho. Alguém que fale a sua língua, que te escute mesmo quando você estiver fragilizada, sem dinheiro, mas cheia de paixão porque ali está a sua alma falando.
Ter alguém de confiança ao lado faz toda a diferença. Muitas pessoas passam pelo nosso feed, mas poucas seguram a nossa mão de verdade.
A PAUSA É RARA.
“Estou em uma caminhada na floresta e carrego uma mochila.
Não dá para levar tudo.
Voltar também não é uma opção.
Siga.
Escolha com cuidado o que vale a pena carregar.
Lute quando for necessário.
Descanse quando precisar.
Escolha sempre a vida.”
A Letícia sempre foi pausa, mesmo antes de saber disso. Hoje, ela sustenta esse lugar com consciência, estratégia e maturidade. A PAUSA não é apenas um serviço é uma filosofia de cuidado que começa em quem cuida. E acompanhar essa construção, de perto, é um privilégio. Obrigada por essa entrevista, e obrigada por me permitir fazer parte.