Lucro quase dobra em um ano, enquanto queixas sobre cobranças e serviços batem recorde
Um ano após a conclusão do processo de privatização, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) apresenta um cenário de contrastes. Por um lado, a empresa registrou um significativo crescimento em seu lucro líquido. Por outro, houve um aumento substancial nas reclamações de consumidores, multas ambientais e uma redução no quadro de funcionários.
A venda do controle acionário da estatal foi uma das principais bandeiras da gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Com a transição, o Estado de São Paulo detém agora 18% das ações, e a Equatorial Energia se tornou a investidora de referência da companhia.
Disparada no lucro e reinvestimentos
Nos resultados financeiros, os números são positivos. No primeiro semestre de 2025, o lucro líquido da Sabesp atingiu R$ 3,6 bilhões, representando um aumento de 78% em comparação com o mesmo período de 2024. No segundo trimestre, o lucro por ação foi de R$ 3,12, alta de 76% ante os R$ 1,77 do ano anterior.
A empresa atribui parte desse desempenho a uma “força de trabalho mais enxuta” e à eliminação de descontos para grandes clientes corporativos. A Sabesp informa que 75% do lucro é reinvestido em infraestrutura, com um total de R$ 10,6 bilhões investidos no período, parte de um plano de R$ 70 bilhões previstos até 2029.
Aumento de reclamações e cobranças
Em contrapartida, a insatisfação dos consumidores cresceu. Dados do site Reclame Aqui mostram que a nota da empresa caiu de 6,3 (regular) em 2023 para 4,4 (não recomendada) em 2024. O número total de reclamações na plataforma saltou de 12.929 em 2023 para 19.214 em 2024.
Os principais problemas relatados são cobranças indevidas, excesso de burocracia para resolver pendências – como a exigência de comparecimento presencial em agências – e cobrança de esgoto em locais com rede a céu aberto. Dados da Agência Reguladora (Arsesp) seguem a mesma tendência, com registros de reclamações passando de 610 para 1.246 na comparação entre os primeiros semestres de 2024 e 2025.
A Sabesp contesta os dados das plataformas independentes e afirma que as reclamações feitas diretamente à empresa caíram 9%. A companhia admite ter intensificado a cobrança de inadimplentes, incluindo a negativação de nomes em serviços de proteção ao crédito como o Serasa.
Redução de quadro e multas ambientais
O quadro de funcionários foi reduzido de 10.214 para 9.190 após um programa de demissão voluntária. A empresa informou que está recompondo parte do efetivo com a recontratação de 500 profissionais e 150 estagiários.
No campo ambiental, a Sabesp foi multada em R$ 23 milhões pela Arsesp em julho último devido a um vazamento de esgoto na Estação Elevatória de Pinheiros, que causou poluição no rio. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação apontam que, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, a companhia foi multada 57 vezes pela CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), acumulando mais de R$ 11,4 milhões em penalidades.
Posicionamento do Governo
Em nota, o governo do estado de São Paulo afirmou que a privatização trouxe “avanços concretos” para o saneamento, destacando que 1,3 milhão de pessoas ganharam acesso à água potável e 1,4 milhão passaram a ter coleta e tratamento de esgoto. A gestão também citou a criação da Tarifa Social Paulista, que oferece descontos de até 78% para 2,2 milhões de pessoas de baixa renda.
O governo ressaltou que o contrato prevê sanções claras para eventuais falhas e que todos os episódios são tratados pelos órgãos reguladores, com foco na proteção dos usuários.